31 janeiro 2005

Abram alas à cultura brasileira

O escritor Tabajara Ruas publicou Netto Perde Sua Alma em 1995, recebendo comentários francamente positivos por parte dos críticos de literatura. Como exemplo disso, podemos apontar um artigo do jornal Público, datado de Março de 2003, que descreve esta mesma obra como um “romance histórico brilhante, sintético, frio, visual como um filme”. Ao lermos as últimas quatro palavras, somos levados a recordar que Tabajara Ruas é simultaneamente um homem da literatura e do cinema. Trabalhou com o realizador português José Fonseca e Costa nas películas Kilas, o Mau da Fita e, mais recentemente, O Fascínio. Sem esquecer que realizou, com Beto Souza, a adaptação cinematográfica de Netto Perde Sua Alma (2001).
E eis que chegamos à questão fulcral deste texto: estamos perante uma obra literária e uma obra fílmica, separadas por um período de seis anos. Será que, ao longo desse tempo de intervalo, houve alterações tão significativas na carreira de Tabajara Ruas que dificilmente se encontrem pontos de contacto entre os dois objectos culturais?
Em ambos encontramos o mesmo ambiente histórico. Vive-se no século XIX, algures entre a Guerra dos Farrapos (1835-1845) e a Guerra do Paraguai (1865-1871). O protagonista chama-se General Netto, fervoroso republicano antiescravista e um dos heróis das sangrentas guerras que abalaram e destruíram o Sul da América, na zona abaixo do Equador. Ao examinar as referidas obras, verificamos igualmente que estão organizadas de uma forma peculiar, desrespeitando uma ordem temporal linear e, ao contrário disso, vivendo de constantes flashbacks e flashforwards.
Se nos focarmos na construção das personagens, apercebemo-nos de que o livro explora em algumas individualidades uma certa complexidade psicológica, que o filme acaba por ignorar. Pelo contrário, é notório que a obra fílmica opta por dar mais ênfase e importância à comunidade negra que participou na guerra. (Lembremo-nos do tempo ocupado a filmar festas negras.)
Assim sendo, não será difícil concluir que estamos perante duas obras homónimas, concebidas por um mesmo homem, mas totalmente independentes uma da outra. Talvez o visionamento do filme ajude à compreensão do livro mas não é imprescindível conhecer um para entender o outro. Espero que aceitem estas sugestões. Desejo-vos uma boa leitura e um excelente filme!

4 comentários:

António Araújo disse...

Ousar conhecer outras culturas

O mundo é, nos nossos dias, cada vez mais uma colónia cultural norte-americana. Este facto é evidente ao verificar a ausência de comentários no excelente texto da Mafalda, que extravasando aborda a questão do confronto romance versus filme. Mesmo assim, ninguém ousou comentar. Por mim, que já conheço o filme, fiquei com enorme vontade de ler a obra.

Hugo Alves disse...

Li e gostei ;) (tinha lido à pressa da primeira vez)

Diga-se que do Tabajara Ruas, se há obra que é fílmica, é a "região submersa" que, a par dos três romances de Dennis McShade (Dinis Machao) - "A mão direita do Diabo", "Requiem Para Dom Quixote", "Mulher e Arma com guitarra espanhola" - a melhor paródica que coneço ao género policial.

O detective Cid Espigão, vulgo o docinho (sic) daria um belo dum filme, acho eu

23 disse...

##Deadeasy##

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