25 janeiro 2005

O Trauma do Cinema



Dia 27 de Janeiro marcará o 60º aniversário da libertação do campo de Auschwitz. Após esse momento, em 1945, o mundo mudaria para sempre. Momento, aliás, que ainda não terminou.
O cinema, arte do século XX por excelência, tinha falhado no seu objectivo o acontecimento mais marcante da sua própria época - os campos de concentração. Durante toda a guerra, tratou-se de algo que passou ao lado de toda a civilização, nunca sequer se formando uma imagem concreta do que acontecia. Duvidava-se até, para um largo número de pessoas, da sua existência, algo ainda hoje defendido em teses fanáticas, e com maior sustentabilidade do que muitos acreditam - objectivamente, não existiam simplesmente provas filmadas de tais campos ou actividades.
Depois de Auschwitz, estabelece-se o trauma. O cinema tinha falhado quando mais se urgia o seu papel. Mais que a arte, tratava-se do nosso cinema - falhou a civilização. E para sempre se estabeleceu a distância. Assim filmou esta brilhantemente Alain Resnais em Nuit et Brouillard, em 1955, nas imagens do campo vazio, dos fornos vazios, das chaminés sem fumo, numa das obras mais importantes de toda a História Cinematográfica. Tal como o próprio chega a afirmar, nunca mais se pode filmar da mesma maneira após Auschwitz. Num Holocausto infilmável, é esta a unica maneira que nos resta, ao contrário de A Lista de Schindler, onde tudo surge como se nada do que já aqui escrito fosse.
Assim, também em 1945, nasceu o neo-realismo com Rossellini em Roma, Città Aperta, outra obra fulcral e necessária ao cinema. Na civilização traumatizada, procura-se chegar de novo à realidade crua das coisas, das pessoas, do que tudo é como se vê. Trazer o cinema de volta ao que ele verdadeiramente é, filmando também a consciência da distância, e não falhar de novo. Nunca mais falhar.
E assim ainda se vive, na perseguição da nossa própria humanidade - nunca mais se acabará de falar do Holocausto, de mostrá-lo, de provocar o seu fantasma. Está presente em tudo, tanto na repetição infinita das imagens do 11 de Setembro, como estará sempre noutras catástrofes, e para outras gerações. Para nunca mais falhar.

3 comentários:

António Araújo disse...

Despertemos a consciência da distância…

Ao navegar, deliciado com a qualidade deste blog, hoje que se comemoram sessenta anos sobre o dia em que o Exército Vermelho entrou em Auschwitz, aflige-me o facto de verificar que” O Trauma do Cinema” seja um dos dois textos que não teve comentários dos visitantes.
Pela própria ausência de comentários, mais do que nunca a expressão “consciência da distância” ganha força e importância. Felizmente que numa época pré-eleitoral e pródiga em peripécias mesquinhas, tão do agrado de tantos, um jornal de referência como o Público traz para as primeiras páginas um dos sinais mais preocupantes de ontem e de hoje: o racismo.
E para que a consciência não fique distante dos nossos dias não resisto em transcrever o testemunho de Armand Bulwa, sobrevivente polaco, deportado para Buchenwald em 1944 quando tinha 14 anos.

“Durante as inspecções que duravam várias horas ao frio e à neve, tinha os braços cerrados contra as minhas calças demasiado largas, esperando que elas não me caíssem pelas pernas abaixo. Passaram dois dias e a única coisa que fiz foi agarrar-me às calças sem conseguir encontrar o mais pequeno cordel para as segurar. Por esta altura convenci-me que estava condenado à morte. E depois chegou um tipo, Elie Busin, que me salvou a vida. Tinha recebido umas calças com dois cintos e espontaneamente ofereceu-me um.”

Felizmente para a humanidade que no meio do mais tenebroso dos horrores há sempre sinais de esperança como aquele simples cinto que foi oferecido espontaneamente.

Anita_ disse...

A necessidade de realidade sentida pelo cinema depois de Auschwitz foi imensa. Mas porquê mostrar o horror, a mostruosidade do homem? Seria uma espécie de penitência? O que é certo é que, ao captar visualmente o mais horrível que pode fazer o ser humano, o cinema chocou e encantou. Chocou pelo horror, pela História que todos conhecemos. Encantou pelo poder de o Homem se pdoer ver a si próprio na figura de um Deus que manipula as suas marionetas no "teatro do mundo".
Falar do Holocausto é relembrar a cada dia a condição mais baixa do Homem e ao mesmo tempo fazer dele um ser todo-poderoso. Assim é também o cinema, uma imagem da Humanidade.

Luca disse...

Rossellini interessou-se também da crise da Alemanha no filme "Germania Anno Zero": o seu protagonista, o pequeno Edmund representa fase mais pessimista do realizador italiano sobre o futuro da umanidade depois do "buraco negro da consciência" de Auschwitz.