27 janeiro 2005

Proposta de discussão


Já são conhecidas as nomeações para os Óscares e, mais uma vez, há ausências imperdoáveis. Parece-me inconcebível que Eternal Sunshine of the Spotless Mind não tenha sido nomeado para melhor filme e que Jim Carrey não faça parte dos escolhidos ao posto de melhor actor.
É inacreditável que se minorize um filme absolutamente genial e que se tenha o descaramento de pôr de lado uma demonstração de camaleonismo. Mas, pensando bem, já devíamos estar habituados. Não foi na cerimónia do ano passado que a Academia roubou a estatueta a Bill Murray?
Dito isto, resta-nos torcer por Kate Winslet e por Charlie Kaufman. E não se esqueçam de fazer figas para que 2005 seja finalmente o ano Scorsese.

15 comentários:

Rodrigo disse...

O Escorcês não ganha óscares. O Jim Carrey também não. Para já é canadiano. Depois é actor cómico. Mas não é. Ele é muito mais que isso. Só que a Academia é a pior coisa que já existiu. Arrisco-me a comparar este escândalo estúpido e extremamente idiota à estupidez patente em terem dado um Grammy de melhor banda heavy metal aos Jethro Tull em 1989. É por isso que eu digo, tal como os Metallica disseram em 1990: ainda bem que os Jethro Tull não lançaram um disco este ano. Ah, e eu odeio tanto Metallica como Jethro Tull, não vão por aí, por favor.

Brasil disse...

Os oscares para mim são como as Misses, nunca ganha a melhor...
Não preciso que ninguém elega por mim quais são os melhores filmes do ano, ou quem é a mulher mais bonita. Como a Mafalda diz : "mais uma vez, há ausências imperdoáveis", e sempre vai ser assim...

Francisco Valente disse...

Cara Mafalda,

Tal como te disse, vim também participar na discussão sobre o "esquecimento" de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" pela Academia. Ao ler o teu artigo, não deixei de sentir a minha discordância pelos teus argumentos, e também pela forma como os expuseste.
Normalmente, quando a Academia esquece algum filme, não é porque consideram a obra em questão má ou muito fraca. Simplesmente tendem a não compreendê-la, não por serem ignorantes, mas apenas porque se tratam de filmes que estão à frente do seu tempo, que esperam anos até serem compreendidos e reconhecidos como exemplos do cinema enquanto arte. É o que acontece com grande parte dos clássicos em qualquer arte, e o que os torna em peças de culto. Tal aconteceu com uma série de fitas - "Citizen Kane", "City Lights", "The Searchers", "2001", etc... Esses sim, são filmes cujas ausências se poderiam considerar "imperdoáveis", filmes sim "absolutamente geniais".
Ora, o que previsivelmente acontecerá com "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" será o contrário. É sem dúvida um bom filme, mas está longe de ser um clássico. Um exemplo de um clássico dos tempos mais recentes é, como dizes, "Lost In Translation". Não só é um filme muito bom, mas é um filme que respira uma cultura cinematográfica acima do normal, algo que é transmitido pela forma como nos são mostradas as imagens, o seu movimento. Isto é uma característica que define claramente um clássico no cinema. Quanto a mim, falta essencialmente isto a "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" - é uma bela história, e sem dúvida original, mas será o seu cinema original ? Quanto a isso tenho mais dúvidas. Não deixei de sentir uma sensação de déjà vu quando saí da sala de cinema. Para um filme ser verdadeiramente superior, não deve esquecer isso. O cinema não são as histórias, é o que contém as histórias. Para mim, esse filme apenas passa em poucos momentos de uma bela história. Não acho de todo que seja um mau filme, pelo contrário, mas não fiquei surpreendido pela sua não-nomeação para a categoria de "Melhor Filme". Aliás, esqueces-te de outro facto - apenas um dos nomeados foi apresentado no nosso país, o que te garante que os outros não sejam também grandes filmes, e se calhar, mais originais ?
Quanto ao caso de Jim Carrey, também não acho que seja "inconcebível". Há que distinguir duas coisas essenciais, tal como introduziu o Rodrigo - comediante e actor. São algo que eu vejo sempre como completamente distinto, raramente vejo um comediante como um actor. O problema é que Jim Carrey raramente tem sido um actor, apesar de ser, isso sim, um comediante genial. O que se passa, a meu ver, é que as pessoas vêem um comediante num papel "sério", ou que implique um papel completamente diferente por parte da pessoa, ou seja, tornar-se "actor dramático" (pois um filme costuma sempre ser um "drama"), e tendem imediatamente a achar que o actor em questão é "genial", devido à sua "demonstração de camaleonismo". O que elas se esquecem é que nunca se passa de um estado de "camaleão" para outro, pois esses dois não fazem parte da mesma esfera da "ciência", ou qualquer outro nome que queiram dar, da "interpretação". Assim, nunca vi a sua actuação em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" como algo demonstrador do seu génio, pois o seu génio está essencialmente na comédia (e por isso é que se luta contra isso), mas como uma boa interpretação apenas, nunca merecedora sequer de uma nomeação para "Melhor Actor". Mais uma vez, ainda espero para ver quatro dos cinco actores nomeados. E para ver Jim Carrey crescer como actor, por muitos mais filmes. Aliás, nunca cheguei a ver "Man on the Moon", mas creio, pelo que me dizem, que se trata de uma interpretação ainda mais interessante do que esta última.
Resta-me escrever uma nota final para o teu exemplo do Bill Murray - sim, foi uma grande interpretação (de um comediante já actor), mas compreende-se, Sean Penn também merecia. Era um ou outro. E sim, esperemos que Martin Scorcese seja finalmente reconhecido (algo imperdoável...?).

Rodrigo disse...

Francisco, remeto-te para um post do incontornável Jorge Mourinha: http://mourinha.blogspot.com/2005_01_01_mourinha_archive.html#110669378606192704. E volto a dizer que os Óscares são, quase sempre, uma treta. Perdoem-me a expressão, mas é verdade. E Eternal Sunshine of the Spotless Mind é uma obra-prima vinda da mente de dois criadores totalmente brilhantes e geniais: Charlie Kaufman e Michel Gondry. É uma verdadeira tour-de-force cinematográfica, a forma como está filmado, como está escrito, como está organizado dará que falar durante dezenas e dezenas de anos. E tem a agravante de ter duas absolutamente brilhantes interpretações de Jim Carrey e Kate Winslet. Não nomear sequer Jim Carrey é um crime que devia ser punido. Não vou alongar-me sobre isso de ser comediante, Jim Carrey, para além de comediante, é actor. Há poucos casos assim, em que um comediante é actor, mas Jim Carrey é. E isso é inegável. Não vamos fingir que não, não podemos fazê-lo. E só não digo mais porque está a dar o Moonlighting e não preciso de dizer mais, ou preciso?

Rodrigo disse...

Outra consideração acerca dos Óscares: não vi o filme em que participa, mas acho óptimo Don Cheadle estar nomeado. Se bem que seja muito curioso, Don Cheadle é um dos maiores actores secundários do cinema norte-americano, com provas dadas em filmes de Paul Thomas Anderson e Steven Soderbergh. É brilhante, e merece quase de certeza a nomeação.

Francisco Valente disse...

Rodrigo, antes de mais obrigado pelo link.
Talvez os Óscares sejam quase sempre uma treta, ou centro de intrigas de estúdios e de uma indústria que, por vezes, faz muita porcaria. No entanto, a verdade é que continuam a ser a grande cerimónia de "reconhecimento" do cinema norte-americano e que toda a gente ainda vê. Como em qualquer entrega de prémios onde se escolhe "o melhor qualquer coisa", é inevitável surgir polémica, tal como surgiu o ano passado em Cannes (duvido muito que "Farenheit 9/11" seja sequer um filme, quanto mais "o melhor"). Concordo com o Jorge Mourinha em relação ao "Before Sunset", o critério chega a ser patético, no entanto em relação à questão dos actores principais/secundários, isso será sempre uma questão de "cachet" e de nomes de estúdios. É óbvio que Natalie Portman em "Closer" não pode ser tomada como uma personagem secundária, mas no cartaz o seu nome está atrás do de Julia Roberts, que pela carreira que leva, duvido que alguma vez volte a ser "actriz secundária". O mesmo digo em relação ao Jamie Foxx com o Tom Cruise.
Quanto a "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" e Jim Carrey, também não preciso de dizer mais nada. Talvez o filme venha a ser recordado, como dizes, por anos e anos, mas continuo a duvidar. Se for, ainda bem. Talvez daqui a uns anos veja e compreenda a tal dimensão do filme. Mas continuo a achar que não é tão original como aparenta ser em tudo o que um "melhor filme" deve ser, na forma como está filmado, escrito e organizado. Mas não deixa de ser um bom filme.

Rodrigo disse...

Nos últimos anos assistiu-se a uma progressiva estupidificação dos Óscares. Relembro que Gladiator ganhou o de melhor filme em 2000. Onde é que esse filme tem aquilo tudo de que falas não faço ideia. O mesmo digo de A Beautiful Mind, de Chicago e - porque não fazê-lo? - LOTR. Shakespeare in Love em 1998, etc. O que quiseres. Não foram, de todo, filmes que reuniram as as características de que falas.

Francisco Valente disse...

Claro que não, são filmes que representam exactamente o pior que há na indústria norte-americana. Mas outros filmes já ganharam também esses mesmos óscares, como "The Godfather", "Casablanca", "On the Waterfront", etc... Claro que o reconhecimento desses primeiros pode descredibilizar o dos outros, mas a posteriori são sempre distinguidos pelo seu real valor. E já agora, o critério de "clássico" que expliquei não é o que julgo ser defendido pelo da Academia, que é muitas vezes misturado por essas porcarias, mas sim o meu. Essa mesma estupidificação da cerimónia de que falas também pode servir para outra discussão interessante - uma eventual banalização ou deteriorização do próprio cinema.

Francisco Valente disse...

Um último comentário só - no meio desses todos, está "American Beauty", um grande filme. Apesar tudo os óscares nem lhe ficam mal.

Rodrigo disse...

Não sei se reparaste, mas deixei de fora American Beauty propositadamente. E os filmes de que falas ganharam óscares em décadas anteriores, a partir da segunda metade dos anos 90 que isto tem vindo a piorar. E politiquices à mistura, já nem são só as grandes quantidades de drogas que os participantes tomam. Na maior parte das vezes eles estão lá e não podem receber os Óscares porque estão completamente alterados e a cair para o lado, daí mostrarem vídeos a dizer que não estão. Ou isso ou o meu professor de inglês gosta de enganar os alunos.

Rodrigo disse...

Lembrei-me agora duma comparação óptima. Eternal Sunshine of The Spotless Mind é o equivalente cinematográfico do Kid A e do Yankee Hotel Foxtrot. Obras maravilhosas e totalmente geniais dos anos 2000 que vão ser estudadas durante anos e anos a fio. Quebram todas as convenções, mas vêm no seguimento de algo.

Nabur disse...

Erros bem mais graves tem cometido a Academia, tais como galardoar Russel Crow em O Gladiador! Que esperassem mais um ano! Se lhe queriam tanto dar a estátua teriam feito melhor figura se a tivessem atribuído quando desempenhou o papel principal em Mente Brilhante. Alias, por falar em Gladiador - será que perderam o juízo nesse ano???? Como é que é possível que um filme destes tenha tido tantas nomeações?
Isto para não falar no Senhor dos Anéis - será que o terceiro filme se destacou tanto em relação aos outros para merecer tantos Óscares em comparação com o 1 e 2?
Bom, mas vamos falar de coisas sérias: como é possível Hall Berry ter sido nomeada para Óscar de melhor actriz na sua prestação em Monsters Ball??? Pior!! Ganhou!!!!!! Uma coisa é o 11 de Setembro, outra é o cinema, e faz-me confusão que a política seja descaradamente infiltrada no meio cinéfilo, desacreditando de ano para ano a cerimónia da entrega dos Óscares.

Rodrigo disse...

"You mean the Oscars are political?" (com um ar espantado)- Robin Williams

Anónimo disse...

vcs sao uns visionarios do cinema e realmente os judeus nao percebem nada disto

concha disse...

Graças às mui meritosas reprises do Ávila, consegui ver finalmente "Eternal Sunshine of the Spotless Mind". Entrei na sala cheia de expectativas (o que chez moi dá frequentemente mau resultado) e o filme não me desiludiu - pelo contrário, encheu-me as medidas! Ao proporcionar-me duas horas de excelentes representações (Jim Carrey, um ACTOR com que embirrava, e Kate Winslet, habitualmente demasiado açucarada, excedem-se em performances brilhantes), universos paralelos credíveis bem ao estilo de Kaufman, e ainda alguma ginástica mental, "O Despertar na Mente" cumpriu o seu papel e passou a fazer parte do meu imaginário.