24 janeiro 2005

Così fan tutti



E o cinema apresenta-se, de novo, como prova de verdade, tal como ele sempre é e seguindo sempre a sua natureza. Em Closer, e nunca Perto Demais, chega-se a uma das suas formas mais verdadeiras.
O Homem tanto define a sua liberdade, como define as suas próprias regras. São estas as do jogo que as quatro peças jogam neste filme, sem as quais "somos todos selvagens" (afirma a personagem de Clive Owen, uma excelente revelação, assim como Natalie Portman). As nossas fotografias "são mentiras", retratos que escondem quem realmente somos, as nossas obsessões, os nossos medos, apenas derramados por uma lágrima, uma gota que passa num rosto recalcado. Este é o cinema cru e fatalmente verdadeiro de Closer, o cinema do Id, que expõe os nossos instintos e pulsões. E quem vence o jogo é quem acaba também por as dominar, acima de qualquer outra regra.
Assim, mais uma vez, o cinema de cada um de nós é o agitado neste filme, obra mais marcante do que qualquer aparência - é esta a importância de Closer, e de todo o cinema, o que acaba por definí-lo. Afinal, acaba por passar por nós suavemente, tal como na música de Mozart, nas passagens extremamente bem geridas do tempo, e nos planos iniciais e finais de uma grande obra de cinema.

7 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia,

Em primeiro lugar, parabéns! Este é um espaço que inspira e em que se respira cinema. Obrigado!

Vi ontem Closer. Estava a ler o vosso comentário e nao podia deixar de comentar. Closer é um filme que se respeita mais do que se gosta! É uma obra que se respeita pelo incrível trabalho dos actores aos quais se pede uma vulnerabilidade quase impossível e pela estonteante orquestração de Mike Nichols, que reinventa estilo e actores, preenchendo os espaços entre as palavras com nuances que dizem tudo, com verdades cruas e gargalhadas que doem.
Closer está perigosamente perto, é humano demais, e é isso que assusta.

Rodrigo disse...

Quero ver essa merda. Quero ver essa merda. Quero ver essa merda. Aparecer isto escrito num sítio qualquer como um quadro de sala de aula. 30 vezes, 50 vezes, 70 vezes, as que couberem na ardósia. Angels in America, mesmo sendo uma adaptação de uma peça de teatro, é das coisas mais brilhantes que apareceram em televisão nos últimos anos. Salvo erro, foi a última coisa que Mike Nichols realizou antes de Closer e é, porra, foda-se, genial. Como é que aquele homem é casado com Diane Sawyer nunca saberemos, mas isso também não interessa.

Mafalda Azevedo disse...

Fiquei a pensar na expressão "perigosamente perto". Foi isso mesmo que senti depois de ter saído da sala de cinema. Aquilo que contemplamos está longe de ser aquilo que desejamos e, no entanto, parece tão perto, tão difícil de evitar.
Nunca fui grande admiradora da Julia Roberts mas há que admitir que ela "enche" todos os planos. Além disso, é inegável que Closer merece todo o nosso respeito. Não só por ter um Clive Owen e uma Natalie Portman a surpreenderem de minuto a minuto mas por nos fazer sair da sala de cinema com um nó na garganta e um aperto no estômago.

Doutor_cabé disse...

E eu fiquei a pensar na expressão "Tenho de ver essa merda."

Pensei que tinha sido banido por causa do vocabulário, mas infelizmente vejo que foi mesmo por causa das ideias!

Transpirem cinema à vontade: o Doutor Cabé vai respirar para outro sítio a menos que peçam desculpa publicamente pela censura de que fui vítima.

Cordialmente

Doutor Carlos Alberto

Anónimo disse...

Não resisto a recomendar Myse en Abyme, o blog da minha maninha linda Mafalda Azevedo e do Francisco Valente.
Mais do que uma homenagem elegante ao cinema, Myse en Abyme é uma homenagem à vida na sua totalidade: ao poder hipnotizador da beleza de Emmanuelle Béart, à augústia agoniada de Fellini, à cumplicidade de Stand by Me, Lost in Translation e Lilya 4-Ever; à violência manipulada de Hitchcock e Misery e... ao mistério...
"Myse en abyme esta encaixado em nós e reproduz a nossa própria vida."
Saudades,
Ritinha com orgulho.

Anónimo disse...

Depois de ver este filme fica-se impressionado com o que podemos fazer à nossa vida quando contamos toda a verdade...Este filme despe todas as pessoas por completo, é assim que somos, são estas as obsessões que temos, somos fracos, mas na história eles admitem!Esta adaptação de uma peça atinge o mais fundo da alma, sem dúvida um grande filme!

Mafalda Azevedo disse...

Já fui ver este filme há tantos dias e não há maneira de o conseguir esquecer...

" And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

(...)

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial "

Damien Rice