03 janeiro 2005

Os Sonhadores


Até que ponto se pode viver o cinema? Mais do que a simples projecção de um filme, a sala de cinema é o local privilegiado para a transfusão de imaginários entre o realizador e o espectador, através do exponencial metafísico e da dimensão imaginária das próprias imagens. Neste jogo de sugestão, interpretação, e assimilação do que se vê no ecrã, a existência física do indivíduo é logo esquecida no estabelecimento da ilusão do movimento das imagens – isto num cinema-ideal, e que deve sempre ser procurado por parte de quem faz o filme.
A sugestão irresistível de Bertolucci em The Dreamers (Os Sonhadores) transporta esta mesma ideia para o domínio do físico na realidade exterior à sala, projectando-se assim o corpo para um outro lugar – o do seu cinema, libertando-se do seu limite físico, tal como o espectador na sua sala escura, para existir de uma outra maneira e por um outro veículo, agora imaginário. Tal acontece um pouco (ou bastante) com cada cinéfilo, e intensamente com Théo e Isa, e, por algum tempo, com Matthew. Este último fascina-se pelos dois irmãos gémeos, seres que não fazem outra coisa senão viver o cinema deles, acabando por partilhá-lo com o próprio jovem americano, que entra neste mesmo jogo de quebra dos limites. Afinal, não será o cinema também isso ? Um novo lugar, uma nova existência do espectador, a inexistente intervenção de limites físicos em algo qualitativamente semelhante a um sonho?
Daí a nova humanidade, algo aspirado pela luta política vivida na altura, e por Matthew junto dos seus novos amigos, numa cinefilia, mais que militante, como condição da própria existência (assim, quando este pergunta onde nasceram, Isa responde : "I entered this world in 1959, sur le trottoir des Champs Elysées..."). No entanto, até onde pode ir esta desintegração física no dia-a-dia, a convivência ilusória e ficcional entre os três (porque o cinema, objectivamente, também é ilusão e ficção, uma impressão da realidade - aqui o Maio de 68 de cada um dos três jovens), ou melhor, entre um cinema (dos irmãos), e um terceiro? Será a convivência dos cinemas de cada um inquebrável na progressiva transformação ilusória da realidade? Até que ponto surge a ruptura, a necessidade do tal limite humano, sem o qual qualquer existência social está condenada? É nesse momento que aparece a pedra a quebrar a janela, o acordar final de Matthew e a conclusão que se adivinhava, construída pelo seu próprio cinema no choque com o de outros, e numa luta para se agarrar ao seu lugar – o sonho.

2 comentários:

gonn1000 disse...

Sim, vale a pena (re)ver, e acho que foi um dos títulos mais ignorados de 2004. Para mim, tem lugar cativo no TOP 5 do ano...

Anita_ disse...

Sonho, talvez aquele que esteja mais perto da morte, da desilusão. Sonhadores é de facto uma obra maior na compreensão do cinema e da sua função. Fernando Pessoa dizia "o Homem sonha, Deus quer, a obra nasce". Coube sempre ao Homem a função maior: a do sonho. Mas a efemeridade que esse sonho comporta em si é tão grande que o torna belo. Porque a efemeridade tem algo de belo, ela não se reproduz. O cinema procurou mudar isso, sonhou e quis tornar a efemeridade reproduzível. A obra nasceu e depressa tomou conhecimento de que tinha falhado no seu propósito. A ilusão de que se podia capturar a efemeridade foi ela próprio efémera. Porque a beleza da imagem reside no momento único da experiência. Mas todos os Sonhadores continuam sempre a tentar realizar esse sonho porque essa é a única maneira de o manter vivo.