30 janeiro 2005

Finalmente uma actriz portuguesa!

O cinema lusitano, recheado de dificuldades e fraquezas que vai tentando ultrapassar, nunca teve muitos apoiantes no interior da população portuguesa. É mais fácil atribuir a etiqueta “enfadonho” a um filme de Manoel de Oliveira ou de Fernando Lopes do que pagar o bilhete e tirar a prova. Assim como é mais simples resumir todos os nossos actores à categoria de “incapazes”, mesmo que existam ilustres excepções a desempenharem papéis notáveis.
Uma dessas excepções chama-se Beatriz Batarda. Começámos por vê-la em Tempos Difíceis de João Botelho, assistimos a prestações em películas de Oliveira e admirámo-nos com o seu desempenho em Quaresma. Contudo, foi em 2004 que o público português se rendeu ao seu talento. Nesse ano, fomos apresentados a Carla, heroína de Noite Escura, e a Evita, protagonista de A Costa dos Murmúrios.
Carla, acostumada a negociatas e prostitutas, espanta-nos com o seu altruísmo e com a sua forte personalidade. Estamos de tal forma estarrecidos com a dureza da sua expressão facial e com a sua linguagem obscena e brejeira que nem reconhecemos Beatriz Batarda. Por outro lado, Evita traz-nos a imagem da mulher bonita, serena e tranquila. Jamais a esqueceremos ao som de Petula Clark ("Quand je ne dors pas // La nuit se traîne // La nuit n'en finit plus // Et j'attends que quelque chose vienne // Mais je ne sais qui je ne sais quoi"), vestida com roupas dos anos 60 e a passear pelas praias moçambicanas.
Da próxima vez que estrear um filme com a participação de Beatriz Batarda, recomendo-vos que não o deixem escapar. É um privilégio poder assistir a todos os passos da sua carreira. Vê-la no grande ecrã é a forma mais agradável de aliviar a nossa memória cinéfila de representações solenes e pouco emotivas, bem ao estilo de Leonor Silveira, e é também a melhor maneira de acreditar no actual cinema português.

19 comentários:

JoaoSagreira disse...

A facilidade com que se atribuem “rótulos” ao cinema Português é inacreditavel, se não vejamos: para muitos um filme de Manoel de Oliveira é = a um filme parado, aborrecido, sem acção e longo. No entanto, muitos destes “rotuladores” nunca viram um filme deste realizador.
Assim sendo, só me resta dar os parabéns a mais um dos belíssimos comentários com que a Mafalda nos tem vindo a habituar, e que aqui atinge o seu auge ao satirisar um acontecimento muito frequente na nossa sociedade.
É ainda de realçar que são comentários como este que aguçam a curiosidade das pessoas e as levam a ganhar interesse por aquilo que se faz cá dentro. CONTINUA MAFALDA ;)

concha disse...

Eu cá fiquei absolutamente obnubilada com o trailer do novo filme do Manoel de Oliveira. Salva-se o Ruy de Carvalho e pouco mais. Esperemos que, ao menos, a reconstituição histórica compense o preço do bilhete e que não tenhamos que gramar com excertos do José Mattoso... Lembram-se da professora de História Leonor Silveira e dos seus entediantes monólogos sacados da Enciclopédia Luso-Brasileira?
Quanto à Beatriz Batarda, rejubilo-me com a sua versatilidade, credibilidade e classe. Espero poder assistir a uma franca ascensão desta actriz promissora.

Mafalda Azevedo disse...

Ao ler estes comentários, apeteceu-me acrescentar que é tão injusto considerar-se que "toda a obra de Manoel de Oliveira é um longo bocejo" como dizer-se que "toda a obra de Manoel de Oliveira é genial". E só posso concordar com a expressão "entediantes monólogos sacados da Enciclopédia Luso-Brasileira"... Aliás, a apresentação do último filme também me deixou um tanto ou quanto assustada... A ver vamos! Parece-me que o importante é discutir com conhecimento de causa... Por isso, cá estaremos depois de ver o último Oliveira.

Rodrigo disse...

Nunca vi um único filme de Manoel de Oliveira, o chamado Mestre. Poderiam dizer-me se eu iria ou não achá-lo chato? Eu acho os filmes do Jerry Bruckheimer chatos. Acho qualquer filme com o Richard Gere chato. Acho o [i]Fallen Angels[/i] do Wong Kar-Wai chato. Acho o Steven Spielberg chato. Acho tudo chato, menos eu. Não, também me acho chato. Serei chato? Não sei. Vou achar que o Manoel de Oliveira é chato? Não sei. Não tenho idade para ver filmes dele. Ou tenho? Terei idade para ver filmes do Manoel de Oliveira? Será ele chato? Quem é que é chato? Não é ninguém?

Mafalda Azevedo disse...

Há por aí coisas cinéfilas tremendamente aborrecidas. O Elephant de Van Sant, o Exorcist de Renny Harlin, as falas da protagonista de Before Sunset, os devaneios intelectuais de Lá Fora... E isto só para dar 4 exemplos actuais e completamente distintos.
Quanto ao Manoel de Oliveira... Serei sempre da opinião que vale a pena experimentar! Mais que não seja por se tratar do nosso realizador mais conhecido no estrangeiro. É uma vergonha para um português, que tenha acesso à cultura, nunca ter visto um filme dele... No fundo, é como nunca ter lido um romance do Saramago. Coragem!

Rodrigo disse...

Nunca li um romance do Saramago. E, sem qualquer tipo de ofensa, a próxima coisa que eu vou dizer é para ser lida de uma forma não insultuosa, e não quero que te chateies comigo por isso. Quando à tua menção do Before Sunset, vai à merda (sem qualquer tipo de ofensa para ti ou para alguém que esteja num raio de 1 km da tua casa ou assim). Richard Linkater é Deus. Julie Delpy é um anjo. Ethan Hawke também. Baby, you're gonna miss that plane.

Mafalda Azevedo disse...

Se a Julie Delpy é um anjo, então é o anjo mais execrável que já existiu. Há pouca coisa que se aproveite naquela personagem... Uma mulher apaixonante deveria ter um leque de assuntos mais variado do que ecologia, gatinhos e avós doentes.
Serei a única pessoa com esta opinião?

Rodrigo disse...

Diz-me uma coisa, Mafalda, viste o Before Sunrise?

Rodrigo disse...

A primeira troca de olhares entre eles no comboio. A cena no café. A cena na loja de discos. O cemitério. A despedida. O nascer do sol em Viena. Viena filmada pela câmara de Richard Linklater. Texanos na Europa. Texanos a filmar amor na Europa. Paris. A trivialidade do romance que dura uma música pop. Após 9 anos, o reencontro. Andar pelas ruas de Paris. O barco só para turistas. No barco, a brisa a mostrar a barriga de Julie Delpy. A discussão no carro. A subida silenciosa das escadas. Waltz for a Night. A Julie Delpy com uma guitarra. Nina Simone. You found me just in time. Baby, you're gonna miss that plane. E perde o avião. Cínicos, românticos, americanos balofos e estúpidos, europeias lindas. Do Texas não podia vir uma coisa destas. Ou podia? A forma apaixonada como Richard Linklater filma...brilhantes, os dois filmes.

Mafalda Azevedo disse...

Estávamos a escrever sobre Before Sunset que é claramente pior do que o primeiro. Aliás, os meus exemplos nunca pretenderam agredir Before Sunrise.
O único aspecto que posso sublinhar no teu comentário é a referência a Nina Simone... Isso sim!
De resto, devo confessar-te que, para mim, um filme "brilhante" é bem mais do que uns quantos diálogos joviais.

Rodrigo disse...

É quase um único take de dois actores com óptimos diálogos, exteriores escolhidos a dedo, relações humanas, a vida adulta e os 30. Dirigidos por aquele que é um dos maiores realizadores americanos dos anos 90. São ambos filmes excepcionais. Esqueci-me do tipo que lhes faz um poema. Já não sei em qual dos filmes é. Misturam-se os dois filmes na minha cabeça. Para mim, Before Sunset é superior a Before Sunrise, e são ambos filmes excepcionais pela sua absoluta simplicidade. E a química que há entre os dois actor...Jesse e Céline. São duas pessoas a sério. Não está lá nem Ethan Hawke nem Julie Delpy. Estão a subir as escadas. Não pronunciam uma única palavra. (Re)Encontraram-se mesmo a tempo.

Rodrigo disse...

Diálogos que (quase) fazem um filme: Pierrot, Le Fou (e eu sei que gostas do Godard...).

Mafalda Azevedo disse...

Meu caro:
Há diálogos e diálogos... Quanto ao Godard... Veio-me à memória O Desprezo e aquele tema musical absolutamente fantástico. Boa recordação!

Rodrigo disse...

Também adormeci no Le Mépris. Peço desculpa. À Bout de Souffle é que é.

concha disse...

"Para mim, Before Sunset é superior a Before Sunrise, e são ambos filmes excepcionais pela sua absoluta simplicidade."

"Jesse e Céline. São duas pessoas a sério."

O sem-abrigo que escreve poemas em troca de xelins entra em "Before Sunrise" que, sinceramente, não me convenceu tanto como a sua continuação. "Before Sunset" é a vida filmada como ela é, e os protagonistas duas pessoas consistentes com conversas realistas. Avozinhas e gatos? Até te fica mal reduzires quase noventa minutos de diálogos a isso, Mafalda...

Mafalda Azevedo disse...

Fica-me mal? O que fica mal é não aparecer ninguém que seja partidário da minha opinião! "Conversas realistas?" Até podem ser realistas mas são aborrecidas, banais, entediantes...

concha disse...

"A bout de souffle" é o ratinho de laboratório da Nouvelle Vague... franco-intelectualice em bloco. "Le Mépris", por seu turno, é excepcional... e o tema musical "Camille" sublime!

Rodrigo disse...

Richard Linkater=génio

Elsa disse...

Li o livro "Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge há alguns anos. Apesar de não ser um livro de leve e de fácil leitura, acho que faz um bom retrato da época colonial e a autora seduz-me sempre pela qualidade da sua escrita. Ao ler o comentário "Finalmente uma actriz portuguesa" da Mafalda, fiquei cheia de vontade, não só de conhecer a Beatriz Batarda como actriz, mas também de ver o filme e relembrar o livro.