21 janeiro 2005

La Bella Confusione



O que será que nos leva a viver a vida, olhar e sentir o que nos rodeia, o que tocamos, os rostos que vemos? Onde está a verdade para tudo isso, a razão para todas as nossas emoções? Explicar-se-à uma emoção pela razão? "Razão é morte, o mistério é a vida", escreveu Luís de Pina. Filmou Fellini.
Fellini é o verdadeiro cineasta - do espírito, da angústia, da beleza, da magia, do sonho. Aquele que tentou mostrar o cinema digno da vida, de tudo o que ela possa significar. Tal como Guido, enterrar tudo o que carregamos de morto dentro de nós, algo que prove a transcendência humana da única experiência totalmente pura e Verdadeira, a essência da essência - a Vida.
O que é o Sonho? É, também, o nosso cinema. É, também, a nossa vida, o filme desta. A nossa infância, a nossa inocência, a Memória. Tal como Otto e Mezzo. Tal como para Guido, cineasta da sua vida, a sua e a de todos, na sua "passerella" - assim escreveu por notas Nino Rota, outro ilusionista.
É esta busca incessante pelo que há de mais puro e verdadeiro que constrói o nosso cinema, o que tenta responder a algo, talvez ao olhar objectivo de Deus. Que mais dizer perante tanto de vivo, nós, resumidos ao nosso olhar, esse para sempre subjectivo? A Beleza que nos toca, a única coisa que nos toca, flutuante, eterna e alegre, a que nos faz sentir vivos dentro de nós, que nos eleva esse mesmo olhar a sentir a solução estável que precisamos, até depararmo-nos com o que é humano em nós, e para sempre, hélas, instável.
Como passar da solidão sincera do "mistério da própria vida", rejeitá-lo quando o que queremos fazer é vivê-lo, descobrir o amor, sempre pela primeira vez, encontrar a fé que a vida merece? E o que por fim ilumina Guido, ilumina o Homem, é a chave de toda saudade, dança, meditação, profundidade, memória, amor, anseio por viver e por sonhar - Criar. Na paz de todas as inquietações, o Homem é criador. E deve sempre criar.
Sonho é cinema. Cinema é vida, é verdade, a que procuramos, mas que também carregamos todos dentro de nós. É esta a verdade de Otto e Mezzo. Ainda mais que cinema, um hino à vida, uma festa.
Cara Mafalda, Claudia será sempre Claudia em Otto e Mezzo...

2 comentários:

Bufas disse...

Belo post, sim senhor, Francisco.
Essa passagem do filme para a tua maneira de ver e de volta ao filme está muito boa. Continua.

Anónimo disse...

Parabéns!Escreves muitíssimo bem!És emotivo o quanto baste, e tens uma forma apelativa de te expressares!Adoro!Continua!Podías escrever sobre o Big Fish, um dos melhores filmes dos últimos anos, e susceptível a várias interpretações!
Eu msm