01 fevereiro 2005

"New York Herald Tribune..."



À bout de souffle: um título, um filme, um estado de alma. A obra cinéfila por excelência prima pela consciência do (seu) próprio cinema e da necessidade de ruptura com este mesmo - assim surge o primeiro filme da "primeira geração a saber que Griffith tinha existido", como afirma Jean-Luc Godard.
No filme que quebra todas as convenções e limites, recoloca-se o cinema no local que se exigia por este grupo de indivíduos - nasce a militância do cinema, a Nouvelle Vague francesa, o tão esperado estabelecimento final do cinema enquanto arte, retrato possível não da vida como existia, mas do que ela poderia ser.
Esta obra é um dos pontos que não só marca um período específico da História do cinema, mas a formação de toda uma filosofia de autor e de criação artística. O realizador, ou "metteur en scène", é como um escritor, um escultor ou um pintor, tal como os cartazes de Renoir, Picasso, os livros de Dylan Thomas, William Faulkner, ou ainda os discos de Bach são criações dos seus próprios autores (assim se pode pensar no fabuloso plano do beijo entre Michel e Patricia no seu quarto como uma menção belíssima a Rodin).
Este filme de referências, que também as destrói, não deixa de ser um de homenagem ao cinema - ao que ele foi, e ao que ele deve ser. Criador de uma doce originalidade, presente em cada plano, em cada "jump-cut", é aqui que Godard dedica a sua obra à Hollywood da série B, do culto (Bogart), dos carros, ou do sotaque americano de Jean Seberg, numa Paris jovem e excitante, um (novo) clássico na busca do moderno ("Monsieur, vous n'avez rien contre la jeunesse ?" "Si, j'aime bien les vieux!").
Este é um cinema que perde a sua inocência numa obra tanto militante (dos "Cahiers") como existencialista, pela sua forma e pelo seu novo diálogo, que quase funciona por slogans. É o cinema numa das suas valorizações artísticas mais essenciais - na sua montagem, no cinema-sonoro, no novo herói-patife do qual o espectador é dependente (que nos diz directamente: "si vouz n'aimez pas la mer, si vous n'aimez pas la montagne, si vous n'aimez pas la campagne, allez vous faire foutre!") - e, já agora, o mais cool, ou o primeiro. Não fosse este um filme de uma geração para todas as seguintes.
E assim nos encontramos, à bout de souffle. Tal como a vida deveria ser, cheia de charme e imprevisível. "Vivre dangeureusement jusqu'au bout!"

2 comentários:

Bufas disse...

A bout de souffle, uma expressão sem tradução em português. Sem fôlego, talvez, mas perde a força, "A bout de souffle" é viver até ao limite, até não se poder respirar mais.

Rodrigo disse...

E Jean-Paul Belmondo vive. Debaixo da câmara de Godard tudo é belo, bonito, até os transeuntes a olhar para ela. Jean Seberg é a mulher mais bonita de sempre e o seu suicídio foi a maior tragédia de sempre. O facto de uma americana falar francês assim é das coisas mais adoravelmente deliciosas de todo o sempre. On dit dormir ensemble, mais ce n'est pas vrai. é a melhor frase de sempre. Os cortes, a câmara, tudo. Não há palavras para descrever, a língua portuguesa só comporta uma expressão para esse filme. E preparem-se, porque essa expressão é "foda-se!".