06 fevereiro 2005

Onde estás David Fincher?



Apesar de curta, a carreira de David Fincher está marcada por momentos de grande talento. Obras como Alien, Se7en, The Game ou Fight Club influenciaram inúmeros espectadores e transformaram-se em objectos de culto. Brutalmente violentas do ponto de vista físico e psicológico, as suas películas têm-se destacado pela capacidade de apresentar reviravoltas portentosas e memoráveis.
Fight Club, marco incontestável na carreira de David Fincher, reuniu Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bonham Carter num argumento que piscava o olho a questões filosóficas e a problemáticas actuais. As personagens, relacionadas de forma engenhosa e interpretadas notavelmente, moviam-se em antros soturnos e exteriorizavam a violência como forma de dar sentido às suas vidas. A sequência final, ainda mais célebre do que o desempenho de Meat Loaf, revelou-se uma metáfora apocalíptica em que saboreámos o tema “Where is my mind?” dos Pixies como nunca antes tinha sido possível.
Contudo, nos tempos que correm, David Fincher parece ter optado por uma vida profissional quase nula. Depois de Jodie Foster não ter conseguido salvar a honra de Panic Room, há uma multidão inquieta que espera pelo regresso do realizador. Correm boatos de que este se encontra em negociações para filmar um thriller, intitulado Zodiac, que narrará a vida de um assassino que nunca foi apanhado pela polícia. Assim sendo, oremos para que Zodiac não inclua a banalidade e previsibilidade de Panic Room e para que se transforme num sucesso digno de constar da lista de filmes de David Fincher.

4 comentários:

gonn1000 disse...

Concordo. "Fight Club" é excelente mas "Panic Room" é apenas rotineiro. Mas ainda não perdi a esperança de rever o génio de Fincher...

Rodrigo disse...

Edward Norton e Helena Bonham-Carter vêem o mundo tal como o conhecemos acabar. Os prédios caem, o centro financeiro da cidade acaba. A sociedade moderna está a acabar. De repente, aqueles quatro acordes, primeiro baixinho, depois mais alto. Os "ooh-ooh" de Kim Deal, os belos "ooh-ooh". A voz agreste de Frank Black - na altura Black Francis. Tudo, tudo no sítio. Quando o mundo acabar a sério será uma pena e um desperdício não ouvirmos isso.
E a banda sonora original do filme, responsabilidade dos génios Dust Brothers, produtores de duas obras-primas inquestionáveis, como [i]Paul's Boutique[/i] dos Beastie Boys e [i]Odelay[/i] do Beck. Esta última já mais questionável, é claro. É de salientar que este foi o primeiro disco em nome próprio deles, esta banda sonora.
O filme é brilhante, brutal, uma perfeita obra que trata da robotização da sociedade moderna e do mundo capitalista de hoje em dia. Do tédio dos grandes executivos. Do comprar móveis por catálogo. Do ficar em frente ao sofá a noite inteira. Das insónias. Dos escapes necessários. De tudo.
Não o livro, gostava de tê-lo feito, mas não se pode ter tudo. O tédio do mundo moderno resulta também em [i]The Office[/i], essa grande série onde os momentos mais hilariantes são os de tédio e aborrecimento quando está toda a gente silenciosamente ao computador.

Nabur disse...

O que essa música me marcou! E eu que saí tão incomodada do cinema sem saber bem porquê e só mais tarde é que descobri que estava nesse estado por causa do desencontro amoroso entre o Norton e a Bonham-Carter...até um filme como o Fight Club pode ser interpretado pela perspectiva romântica. Aliás, para mim uma das principais qualidades deste filme é mesmo esta: poder ser visto sob tantas perspectivas e ser alvo de tantas discussões! Gostei muito...Parabéns ao Fincher!

Anónimo disse...

O Mise en Abyme tornou-se parte da minha vida por volta do dia 5 de Fevereiro de 2005. Esse dia mudou a minha vida e nesse dia conheci a alma do Mise en Abyme...

Passados 2 anos e meio, leio o post inicial e penso na transformação que o blog sofreu e na transformação que a minha vida sofreu.
Aquilo que era um blog sobre cinema do Francisco e da Mafalda passou a ser uma extensão da existência da Mafalda, uma espécie de porta de entrada para a sua alma. Um blog sobre as suas obsessões, paixões, estados de espírito, trabalho...

Cada post novo tanto pode servir como descodificador de um enigma antigo, como lançar um novo enigma no complexo mundo da Mafalda, onde nada é obvio e tudo tem segundas e terceiras interpretações.

O Mise en Abyme deixou de ser um simples blog sobre cinema... não que escrever sobre cinema seja simples, no seu estado mais evoluído escrever sobre um dos filmes da nossa vida é mostrar como esse filme conseguiu transformar a nossa maneira de ser, como a Mafalda tão bem fez no post do Persona.

A questão sobre escrever sobre cinema ou sobre um livro ou um quadro é que temos sempre como ponto de partida a obra de outra pessoa. A verdadeira transformação no Mise en Abyme é que deixou de ser apenas um lugar de escrita sobre as obras de outras pessoas para ser um lugar sobre a vida e obra da Mafalda.

Eu tenho a sorte e o orgulho de fazer parte dessa vida e obra desde o dia 5 de Fevereiro de 2005!

Parabéns por seres tão fantástica.

Beijinhos

PS: Já agora o Zodiac que por coincidencia (se nao me engano) foi o ultimo filme que vimos juntos tem um lugar de honra na lista de filmes do David Fincher :)