14 fevereiro 2005

Proposta de discussão - II



Agora que já pude ver O Quinto Império - Ontem como Hoje, proponho que iniciemos uma discussão acerca do seu valor. Em primeiro lugar, parece-me que um filme, praticamente sem movimentos de câmara, necessitava de um protagonista capaz de envolver o espectador até aos limites da hipnose. Perdoem-me os seus apoiantes mas Ricardo Trepa, inexpressivo e teso, não o consegue minimamente. Foi uma fraca escolha e isso sobressai de uma forma indiscutível quando o vemos a contracenar com grandes actores como Ruy de Carvalho, Luís Miguel Cintra e Miguel Guilherme.
Porém, se nos abstrairmos da personagem principal e optarmos por mergulhar no cinema de Oliveira, ficaremos infinitamente gratos pela música de Carlos Paredes e pelo contraste, sabiamente doseado, entre claridade e escuridão.
Aguardo pelos vossos pareceres. Não deixem de participar!

5 comentários:

concha disse...

Foi o primeiro filme do qual saí a meio... Achei-o enfadonho até mais não, e o ressonar do vizinho de trás só agravou o meu estado de espírito. A falta de jeito (já nem falo em qualidade) de Ricado Trêpa é confrangedora e todo o encadear da (in)acção exasperante! Por que razão decidiu o alegado "Mestre" tratar uma temática potencialmente interessante (a gestão desastrosa dos proveitos dos Descobrimentos, a quase-demência de um mancebo inexperiente a brincar aos reis conquistadores, o ulterior mito do sebastianismo como a razão dos nossos males ao longo dos séculos, entre tantos outros aspectos a explorar) de uma forma tão plana e aborrecida?

"Ontem como hoje"? Sem dúvida. Mas parece-me que, caso o filme fosse mais estimulante, poderíamo-lo intuir sem ter que recorrer à explicação que o título tão gentilmente nos concede.

Nabur disse...

Ah ah ah ah ah ah! Fartei-me de rir com o comentário da Conchinha! Não posso concordar ou discordar porque não vi o filme, mas se tinha alguma curiosidade, acabei de a perder...oh minha Mubla tão linda...acho muito bem que promovas discussões no teu blog, mas faze-lo através de um filme que ninguém quer ver dificilmente será uma boa aposta!

Anónimo disse...

Bem a Mafalda tanto insistiu, que eu me vi forçado a vir participar no blog dela.
Em primeiro lugar, eu adorei O Quinto Império - Ontem como Hoje, penso mesmo que é o melhor filme de Oliveira depois de Vou para Casa, apesar de ter achado Um Filme Falado belíssimo, e a mais lúcida reflexão da sociedade ocidental no pós 11/9/ que vi.
Quinto Império pode até ser um filme sem grande floreados de camera, mas sem movimento, não. Não há cinema com mais movimento do que o de Oliveira. Claro que não é um movimento hollywoodoresco, em que a montagem intervem de 20 em 20 segundos, é um movimento do texto, dos actores, e acima de tudo, da reflexão que provoca o seu cinema.
Plana e aborrecida a forma deste filme, minha querida Concha, tenho de discordar. O filme é um exercício complexo, exigente, de difícil exegese, como já é o texto de partida, que obriga à reflexão da importância de um homem, de uma escolha, no universo mítico português. Aquele homem, D.Sebastião, é a metáfora por excelênxcia de Portugal, pois crê-se predestinado, tal como nós, basta lembrar Ourique, e apesar de tudo apontar para a miséria do solo, para a fome, e para a iminência da morte, é um homem, é um país, que se configura no sonho, que se entrega temerariamente à morte para nela se reconfigurar e não morrer. O Quinto Império é a utopia nacional, e é das ideias sebastianistas, é desta substância que são feitos os ossos de Portugal. Bem quanto à escolha de autores, que há a dizer? Eu gosto mais do Trepa do que o Luis Miguel Cintra, que está, reconheço, num dos seus melhores papéis, dos poucos que vi, claro.
No fundo adorei o filme. A sensação quando vou ver Oliveira é que estou a ver cinema-arte, assim como quando vejo Bergman, Almodovar, e poucos outros.

Bruno Henriques

Rodrigo Piedade disse...

Bom, fui convencido após ler o post do Bruno Henriques a ver o filme.
Achei de facto um filme lento e não escondo que em certos momentos a pálpebra pesou. Confesso que gostei do filme apesar da falta de dinâmica e do estado letárgico em que me colocou. Mas, fazendo uma análise mais concisa, reparei que não passou de uma simples adaptação teatro-cinema, já que os textos são na integra de José Régio e a acção é perfeita para um palco.
No entanto o ambiente soturno e misterioso criado durante todo o filme foi bem conseguido, causando em determinados momentos de euforia verbal alguma ansiedade. Todo o plano estático em que os personagens se colocavam, bem como a luz e as cores, fez lembrar uma tela a óleo com movimento saída do renascimento (algo sombrio).
Umas das passagens que mais me marcou foi uma deixa, a qual passo a citar , “sempre se deseja o que não se tem, sempre se procura o que nos foge e sempre se ama o que não se conhece” (a ideia é esta perdoem-me os mais fiéis se a transcrição não é correcta).
Quanto à participação do Trepa, estava à espera de bem pior dadas as críticas. Achei que estava à altura mas não à idade :), sim porque o Sebastião era mais novo. Acho que também foi uma boa cunha.
Pois bem, já com tanta idade Manoel de Oliveira continua a suscitar o espírito crítico dos demais, ou se ama muito ou se detesta.

Eu fico à espera de mais um, pois sempre é produção nacional.

Anónimo disse...

Fui ver este filme na terça-feira passada, ja depois de ter lido a opinião de Mafalda Azevedo. No entanto,não me pareceu que a Trêpa estivesse mal. É certo que ao principio as falas soam mal, parecem estar fora de tempo e Ricardo Trêpa está rigido, com pouco à vontade mas, lenta e progressivamente, ele e nós(os espectadores) entramos no esquema do filme. De facto, ao longo do filme a personagem de D. Sebastião vai progredindo dentro de uma certa loucura, de um distanciamento da realidade que surge devido à necessidade que ele têm de se manter puro e fiel ao seu destino. Todos lhe falaram dos "estranhos sinais" que surgiram aquando do seu nascimento, todos o viam como "O Capitão de Deus" que salvaria Portugal, todos o elogiavam e D.Sebastião fica impregnado com ideias de grandeza e desejo de (ou será obrigação?) de cumprir grandes feitos.A personagem fica como que envenenada, alheando-se cada vez mais do real e, no meu ponto de vista, parece-me que Ricardo Trêpa conseguiu exprimir tudo isto bastante bem; ele parece sempre distante, olhando para o vazio, respondendo aos seus interlocutores sem mesmo olhar para eles,passando da inércia à gesticulação exagerada de forma brusca, sem esquecer a falta de memória ligada à epilepsia de que (há dados historicos que o afirmam) D.Sebastiâo sofria. Acho portanto que a sua performance neste filme é surpreemdente, tendo também em conta de que se trata de Ricardo Trêpa.
Em relação ao filme própriamente dito, acho que é mais uma peça de teatro filmada (o "teatro-cinema" de que fala Rodrigo Piedade)do que puro cinema. O melhor que este filme tem provém na grande maioria da peça de José Régio. O português, se bem que fortemente teatral, é impressionante; a simbologia de um novo messias, do " um só" que salvará todos, está magnificamente exposta através de um D.Sebastião predestinado que parece saber que tem que se sacrificar para poder salvar a nação;os complexos do rei português estão todos simbolicamente presentes e não podemos esquecer a catarse que D.Sebastião efectua graças ao Sapateiro Santo.
No entanto, também se nota a intervenção de Manoel de Oliveira ( não só pela inércia da câmara). Apesar de tudo, o enquadramento está muito bem escolhido, com D.Sebastião normalmente ao centro, uma janela ou uma porta ao fundo e os conselheiros e os nobres à volta do rei, como se de espíritos se tratasse ou da prórpria consciencia do " Desejado", que debate consigo mesmo, numa desdobramento psicológico símbolo de loucura. Este enquadramento traz, por um lado, o caracter teatral da obra e,por outro, acentua a ideia de sonho ou de ambiente místico. Podemos associar facilmente os nobres e os concelheiros as espectros que se juntam à escuridão e às vozes que que assombram o rei.
Bem, acho melhor ficar por aqui...Basicamente, gostei da obra de José Régio que é no entanto um pouco exaustiva e a intervenção de Manoel Oliveira pareceu-me simples mas minimamente eficaz, conseguindo criar uma atmosfera interessante graças à associação entre sonho e realidade, sem no entanto esquecer promenores como a obsessão de D.Sebastião pela masculinidade que não tem( ferido de morte) e que tenta buscar no exercício e na espada que não quer largar, espada esta com a conotaçao habitual.
Vicente Melo, amigo do irmão do Francisco Valente =)