10 fevereiro 2005

Há planos assim - II



Imaginem um homem que, por ser demasiado bondoso, está constantemente a desperdiçar oportunidades de singrar na vida. Um dia, esse mesmo homem perde a coragem e opta por nunca ter nascido. Então, põe-se a observar o dia-a-dia de todas as pessoas que faziam parte do seu mundo e apercebe-se da enorme importância que tem na vida de todos eles. História comovente, não é? Acabaram de conhecer George Bailey, o protagonista de It´s a Wonderful Life.
Quando Frank Capra pegou em James Stewart para interpretar George, já previa um tremendo sucesso. Aliás, mais do que isso, Frank Capra sempre confiou no enredo de It´s a Wonderful Life e referia-se a ele como “the greatest film I have ever made.” Passados 59 anos da sua estreia, cá estamos a recordar aquele que pode ser considerado o filme natalício por excelência.
Parece impossível escrever sobre a aura de magia e de beleza que envolve esta película. Por isso, convido-vos a observarem o plano escolhido. Sobre ele, escreveu o nosso maior comentador de cinema “ o telefonema a três e o beijo a dois (a câmara sem se mexer, num dos mais prodigiosos planos que alguma vez alguém assinou) ”. São palavras de João Bénard da Costa e podem ser encaradas como uma tentativa de traduzir aquilo que é intraduzível. Olhando para a imagem, e mesmo sem conhecendo o filme, deixamo-nos conquistar pela expressão de Donna Reed, pela compenetração extasiada de James Stewart e pela certeza de que há algo de muito forte a uni-los. Depois, como se fosse um elemento secundário, apercebemo-nos da existência do telefone. Um objecto cénico, tão vulgar como tantos outros, que alcança um valor simbólico único. As personagens partilham um mesmo espaço físico, estão perto uma da outra e, no entanto, encontram-se divididas por um telefone. A voz que sai do aparelho tenta separá-las mas a vontade de estarem juntas é superior. O olhar dele é elucidativo e a desejo dela é esclarecedor: nasceram para estar perto um do outro, aconteça o que acontecer.
Quando um realizador faz um filme, não está só a criar um mundo de cenários e de personagens. Está a dialogar com o público que o vê e está a exprimir aquilo que há dentro de si. Por isso, quando observamos planos como este, devemos estar cientes de que a sua função não se extingue na tarefa de construir um clássico. Bem mais do que isso, planos como este vão construindo a nossa memória pessoal e vão permitindo que, de alguma forma, nos aproximemos da mente de grandes realizadores como Frank Capra.

6 comentários:

Rodrigo disse...

O plano mostra um tipo alheio ao que é óbvio para a tipa. Está certamente um tipo com um machado ou um assassino tarado onde a câmara também está. Ou seja, Frank Capra foi roubar esse plano directamente dum filme do Hitchcock. Reparem no telefone. O telefone mostra que é um filme de Hitchcock, e ninguém sabe porquê. É algo que se pressente. Vai acontecer algo de muito mau, mas algo nos diz que o tipo vai morrer ou a tipa vai morrer e há um deles que se safa e se vai suicidar ou uma coisa assim. Ou outra coisa assim. Ou nada assim. Não sei, não sei. Quando não vejo os filmes é mais difícil. Quando vejo posso dar a minha opinião parva e estúpida, quando não vejo apenas posso dizer barbaridades estúpidas e parvas mas que não estão baseadas em nada. É estranho, é. Não que as minhas opiniões sobre os filmes que vejo sejam sérias, respeitáveis ou até mesmo justas, claro.

concha disse...

Que texto tão maduro e tão bem desenvolvido, Mafalda... Parabéns!

(bolas, pareço uma professora de Português classificar um teste do 9º ano...)

António Araújo disse...

Ao contrário do Rodrigo eu vi o filme e só posso dizer os textos da Mafalda são bons,ponto. Só elogios, já cansa. Mas quando estamos perante textos de tão elevada sensibilidade e bom gosto, e se formos honestos, será que temos grandes alternativas?

Anónimo disse...

aqui tocaste num ponto fraco. gosto muito de capra, do jamie stewart e deste filme. sabias que o filme quando saíu não teve muito sucesso e só se tornou num clássico porque se esqueceram de renovar os direitos de autor e então as televisões decidiram passar este filme no natal, porque era de borla?

beijinhos

david

Mafalda Azevedo disse...

Não sabia e fico realmente satisfeita quando os visitantes trazem curiosidades cinéfilas para o Mise en Abyme. Assim vale a pena!

Anónimo disse...

Há telefones assim !

Ao ler o teu comentário sobre o alcance do telefone como objecto cénico recordei um plano do Paris Texas. Em Paris Texas, o telefone / comunicador surge ambiguamente como um elemento de união e desunião.