28 março 2005

Efeitos eloquentes do vinho


Envelhecer, chegar a meio da vida e sentir que não se construiu nada a que nos possamos agarrar. Olhar para os outros, não nos identificarmos com aquele que sempre foi o nosso companheiro, o nosso melhor amigo. Refugiarmo-nos numa paixão que nos acalenta e nos transporta para um mundo de tonturas e de ressacas. Depositarmos as nossas esperanças num projecto literário que todos recusam. Constatarmos que o grande amor da nossa vida já pertence a outra pessoa.
Sideways é sobre tudo isto: sobre a vida autêntica, aquela que encaramos diariamente e à qual tentamos fazer frente com alguma ironia. About Schmidt já nos tinha mostrado muito disto e isso prova que Alexander Payne sabe filmar a vida e sabe escolher protagonistas: Jack Nicholson numa primeira instância e agora Paul Giamatti. (Já o tínhamos visto recentemente em American Splendor num registo ainda mais depressivo.)
Pensemos em Sideways como um filme de pessoas simples, até banais, que encerram em si mesmas a habilidade de sobreviverem - seja a fazer um estudo sobre vinhos, a planear um casamento conveniente, a falhar tacadas de golfe, a alinhar em esquemas sexuais ou simplesmente a olhar para uma paisagem.

3 comentários:

Rodrigo disse...

A vida, os falhanços, as desilusões a meia-idade, as mulheres e o vinho. A puta do vinho. O vinho que vive, que existe, que cresce, que morre, tudo enquanto as pessoas vivem, existem, crescem, morrem. Tudo. Paul Giamatti já era um dos melhores actores de secundários que por aí andavam, e este filme vem provar mais uma vez que é tão bom actor principal como actor secundário. Mas que não haja erros, este não é um filme de actores, não temos actores ali. Temos pessoas. Pessoas a sério. Tu e eu. Toda a gente. É impossível discorrer muito sobre o filme, pelo menos de uma maneira rápida. E é que nem vale a pena. O filme é. Qualquer outra coisa é facultativa.

Bufas disse...

Fui ver. Gostei? Sim. No entanto sai do cinema com um certo desconforto. Sideways é pura ficção e ao mesmo tempo tão real. É um filme cheio. Cheio de sonhos, cheio de desilusões, cheio de humor, cheio de tristeza, cheio de vida.
É uma historia sem lições, sem falsos moralismos, é aquilo e mais nada. Dois amigos, duas posturas, duas maneiras extremas de gozar a vida. Esta é uma das maneiras de ver o filme. A outra? "A mim parece-me bom."

Rodrigo disse...

A princípio o Giamatti não goza a vida, o Haden Church goza. Depois vai evoluíndo, o Haden Church vai percebendo que afinal as coisas não são como ele pensa que são. Ambos aprendem uma grande lição sobre a vida. As desilusões, o mundo estar contra nós. Tudo. A minha maneira de ver o filme é só uma: "Foda-se".