02 março 2006

Há planos assim - VII



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

5 comentários:

Francisco Valente disse...

C'est beau.

Hugo Alves disse...

Excelente escolha!

Da minha parte, prefiro a sucessão de poemas dedicados ao Natal (também da autoria desse monstro da literatura que É o David Mourão-Ferreira).

Tiago Tejo disse...

Se eu julgava que cruzar-me com algo sobre Stanley Kubrick era o expoente máximo neste blog, enganei-me. Acabo de me cruzar com poesia em língua portuguesa de um dos seus grandes nomes, David Mourão-Ferreira.

Muito boa escolha, Mafalda.
Máximo respeito ao Mise En Abyme a partir deste momento.

Mafalda Azevedo disse...

Devo confessar que fiquei um pouco surpreendida com este "acolhimento" ao poema. Ainda bem que gostaram desta variação... Achei que um bocadinho de poesia no meio de tanto cinema não fazia mal a ninguém!
Obrigada pelos comentários.
:)

Concha disse...

Que homenagem tão bonita a essas pessoas que me são tão familiares...

Mais uma vez provaste ser detentora de um espírito sensível e poético!