10 março 2006

Parabéns George Clooney!



Ontem à noite, após sair da sala de cinema, compreendi finalmente o motivo que levou a Academia a dar o Óscar a George Clooney pelo seu desempenho em Syriana. O motivo verdadeiro foi Good Night, and Good Luck e não o thriller político de Stephen Gaghan. Aliás, Syriana nunca poderia ser razão para nada a não ser para um prolongado bocejo. Durante 126 minutos, assistimos a um argumento confuso e nebuloso em que aquilo que sobressai é um George Clooney gordo e barbudo a dar ares de perspicaz. (Um filme em que o auge só é atingido quando um homem arranca as unhas de George Clooney nunca deveria ser levado a sério.)
Mas regressemos a Good Night, and Good Luck, película escrita e realizada por George Clooney. Depois de o termos visto em filmes de Steven Soderbergh e dos irmãos Coen a usar e a abusar dos seus atributos físicos, sempre preocupado com o potencial de um sorriso apontado para a câmara, foi quase surpreendente ver um George Clooney que põe de lado o charme e dá consistência à personagem Fred Friendly. E, como se não bastasse termos um George Clooney a trabalhar como actor, também temos um George Clooney responsável por um dos melhores filmes estreados em 2006.
McCarthy e a sua “caça às bruxas” surgem assim num filme de interiores, condensado e inteligente, cuja opção do preto e branco realça os contornos dos fumos e dos corpos que se movimentam na arriscada tentativa de expor a verdade fazendo uso de um programa de televisão. Filme de homens, brindado aqui e ali pelo talento de uma cantora e pela sensatez de uma funcionária da CBS, poderíamos encará-lo como contrário à noção de misoginia, na medida em que as poucas aparições femininas constroem uma imagem da mulher independente, habilidosa e respeitável.
David Strathairn, num desempenho tão incisivo e subtil que conseguiu abalar as nossas convicções quanto à vitória absoluta de Philip Seymour Hoffman, começa e termina este filme com um discurso sobre o papel que o jornalismo televisivo deve desempenhar na sociedade. Ao ouvirmos as suas palavras, apercebemo-nos da inegável actualidade e importância deste tema e temos vontade de rir quando os apoiantes de Crash reclamam direitos de vencedor. Crash e as suas personagens planas não trouxeram nada de novo às nossas reflexões. Já Good Night, and Good Luck conseguiu transportar-nos para um tempo em que havia pessoas a arriscarem quase tudo pela verdade. E é neste tempo que queremos viver quando saímos da sala ao som de
" It’s quarter to three,
There’s no one in the place ’cept you and me
So set ’em’ up joe
I got a little story I think you should know
We’re drinking my friend
To the end of a brief episode
So make it one for my baby
And another one for the road "

9 comentários:

Hugo Alves disse...

O óscar de Clooney não foi para melhor acto secundário. Talvez não tivesse sido má ideia criar estoura categoria: "óscar para maiores feitos no ano de 2006". Nessa categoria, Clooney ganharia, sem margem para quaisquer dúvidas ou hesitações!
Quanto ao Good night and good luck há que salientar o mérito de visitar uma das épocas mais negras dos EUA no século XX. Só por essa coragem já merece elogios.

Zyro disse...

Convido o autor deste blog para uma visita a

http://blogblogblogcinema.blogspot.com/
Participa.
Bons filmes e bons blogues.

Francisco Mendes disse...

Subscrevo na íntegra. Parabéns Clooney! Felizmente deixou de tropessar nas ambições do seu filme inicial e realizou uma obra bem pertinente... e actualíssima!

Anónimo disse...

Olá amiga,
´Good night and Good Luck" foi uma surpresa.Os Oscares foram, novamente, uma desilusão. O "Crash" é um bom filme, interessante, estruturalmente devedor de filmes como o genial "Amores Perros",de Alejandro Gonzalez, capaz de um retrato acurado da sociedade norte-americana, esquiva, como todas, ao emolduramento. Contudo, perante filmes como "Brokeback Mountain", belíssimo exercício sobre a impossibilidade de amar, sobre a dor, certamente, avassaladora de se ser o que se não quer, nem pode? ser, a glória de "Crash" é incompreensível. Mas da Academia aprendemos já a esperar tudo, mesmo a valorização de objectos medíocres como "Gladiador". A história de amor entre os vaqueiros era a minha película preferida para o òscar, porque o realizador construiu um colosso, de beleza, com pouco ou, pelo menos, depurou o muito até o tornar leve. Paisagisticamente havia, apenas, uma montanha que emoldurava, ao mesmo tempo que era casa, de um amor condenado; as personagens eram comuns, tristes, incapazes, impossibilitadas; as palavras, tão poucas!; sobrava, só, o amor constante, violento, querido e rejeitado, princípio de morte e de uma regeneração final? Ang Lee produziu sobre um princípio estético e teórico que fundou a modernidade "Menos é mais", neste caso muito mais, um extraordinário filme.
Tudo isto para dizer o quanto gostei de "Good night and Good Luck", único merecedor de uma vitória sobre "Brokeback". O contraste luz/sombra finamente explorado, os enquadramentos, de onde destaco alguns dos mais bem conseguidos grandes-planos do cinema actual, a interpretação fabulosa do actor principal, a mensagem política claramente transmitida sem se tornar propaganda ou grito patrioteiro. Tudo no filme é digno de avaliação positiva. George Clonney merce, no mínimo, muitos parabéns.
Bruno Henriques

Rodrigo disse...

Sem ofensa, Mafalda, mas teres adormecido no Syriana foi uma atitude parva. Disse-te na altura e volto a dizê-lo: o Syriana é fixe.

Concha disse...

"Good night, and good luck" é, sem sombra de dúvida, um filme que vou querer ter em casa.

Anónimo disse...

(Fiquei) Completamente vidrado na moldura de branco e preto que envolve e realça o olhar de David Strathairn, os desenhos do fumo, e a destemida luta pela verdade e pela qualidade.
Estou contigo mestre Mafalda. Não passava por aqui há meses e não pude ficar indiferente à evolução da análise. Continua...
alex (gr)

Mafalda Azevedo disse...

Já sabia que o Good Night and Good Luck era um grande filme mas não sabia que uma película podia ter efeitos mágicos... Só assim se explica que o Bruno Henriques, o Rodrigo, a Concha e o Alex tenham voltado a comentar no Mise en Abyme.
Que grande surpresa! Não deixem de aparecer. :)
Um beijinho para todos.

Nuno Sousa Dias disse...

Olá!

Antes de mais peço desculpa pela minha participação tardía no teu blog.
Em relação ao Syriana, vejo-me obrigado a discordar. Sempre fui fã de filmes de espionagem e este é um belíssimo filme, nessa categoria. Achei o argumento "massudo" mas bom! E conseguiu manter-me interessado até ao fim. Mais importante que isto tudo, fez-me pensar e até me causou algum medo interior, ao pensar que tudo aquilo se passa, efectivamente, nos dias que correm, ou se não aquilo, algo de muito semelhante.
Falando do Good night and good luck, é, na minha opinião, um dos melhores filmes do ano, sem dúvida. Não só a nível de argumento e realização, mas também a nível técnico. Uma fotografia brilhante e uma banda sonora excelente! Digna do enfoque que lhe deste.
Lembro-me de ter visto um filme, há largos anos atrás, não me lembro do nome. Faziam parte do elenco o Warren Beaty e o John Goodman. O que realmente interessa é que o tema era o mesmo, a caça às bruxas. Lembro-me que me impressionou muito na altura.
Resumindo, é um excelente filme, também pela escolha do tema, que foi nele, muito bem tratado.
Por ultimo, acho que tens razão, quanto ao desempenho de David Strathairn, abalou sem dúvida as minhas convicções quanto à vitória de Philip Seymour Hoffman.

Um grande beijinho

Nuno Sousa Dias