12 abril 2007

E eis que tudo ganha sentido



O último filme de David Lynch não recupera o fascínio de Mulholland Drive e nem a humanidade dos já clássicos The Straight Story e The Elephant Man. Aliás, INLAND EMPIRE consegue destacar-se de toda a obra do cineasta e de toda a oferta cinematográfica que por aí anda. No entanto, não me comoveu e não me perturbou. Senti-o longo e tive de suportar o seu ritmo arrastado. Valeu a pena? Sem dúvida. Porquê? Sobretudo porque aquilo que me interessa verdadeiramente é a ousadia de usar o cinema como pretexto para chegar cada vez mais longe. E David Lynch vai muito longe neste INLAND EMPIRE.
Não pensei que fosse possível filmar o sonho de forma tão verosímil e perfeita. Verosímil? Sem dúvida. Quem costuma acordar a meio da noite com pesadelos sabe do que estou a falar. Um macaco que se repete, umas gargalhadas que ecoam, uma frase que já se ouviu, uma atitude inexplicável, uma vontade de mudar o rumo dos acontecimentos – pormenores oníricos amalgamados com um perfeito domínio sobre o surrealismo. (Mas é possível dominar o surrealismo? David Lynch consegue.) Estamos no domínio dos sonhos, no mundo dos sonhos. Estamos também muito longe da terra dos sonhos de Jorge Palma onde “podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal”. Neste sonho, podemos perder a dignidade e até mesmo a vida.
Está tudo à nossa frente, mesmo à frente dos nossos olhos para que possamos ver. Ver e não compreender. Quem é que disse que o cinema tem de ser compreendido? E lá me recordo do João César Monteiro que ousou perguntar se o cinema tem mesmo de ser visto. (Invejo esta capacidade de pôr o cinema em causa, de o questionar enquanto arte e enquanto objecto de entretenimento.)
David Lynch é um libertino. Manipula o conceito de cinema e manipula-nos a todos nós. E ainda bem.
Boa noite.

5 comentários:

Francisco Valente disse...

Obrigado pelo bonito texto.

moleskine - 80 pages of art disse...

Achei que se pudesse interessar por este blog: http://moleskine80pages-art.blogspot.com

=)

Roberto Queiroz disse...

David Lynch sempre teve um facínio pelo surreal, pelo insólito. E é exatamente isso que me encanta no cinema dele (destaco aqui Coração Selvagem, O Homem-Elefante, Twin Peaks, Veludo Azul). Pelo que dá a entender no seu texto, fiquei ainda mais curioso para ver Inland Empire.

(http://claque-te.blogspot.com): A Pele, de Steven Shainberg.

Marianne disse...

Ainda não tinha comentado este texto, queria agradecer-te, como esse palerma do francisco valente, pelo bonito texto que nos deste

wasted blues disse...

Bom texto, mas o que me faltou foi o «sentir» e não o «compreender»...