01 abril 2005

Poemas transformados em filme

“Oh! Ver não posso êste labéu maldito!
Quando dos livres ouvirei o grito?
Sim... talvez amanhã.
Galopa, meu cavalo, serra acima,
Arranca-me a êste solo. Eia! Te anima
Aos bafos da manhã.”
Castro Alves
Antônio de Castro Alves deixou-nos escritos cuja variedade temática é impressionante: poemas patrióticos, amorosos, apoiantes do negro e do escravo, de louvor à mulher, defensores dos grandes ideais, protectores da natureza e reconhecedores do talento de certos actores de teatro.
Conhecido por muitos como “o poeta dos escravos”, deixava discorrer nos versos que compunha um nítido compromisso entre o poeta e o povo, ou seja, uma obrigação de denunciar as humilhações, torturas e desgraças a que os indefesos estavam expostos. Ligado a um sentimento profundamente socialista e utópico, herança do escritor francês Victor Hugo, defendia as grandes causas e pregava reformas universais. Ao lermos os seus versos, constatamos que toda a sua obra respira um genuíno optimismo. Contudo, quando nos dedicamos a estudar a sua biografia, é complicado para nós, enquanto seus leitores, perceber de onde lhe vinha tal disposição para confiar no melhor lado das coisas. Tendo vivido apenas 24 anos, pode dizer-se que teve uma existência bastante intensa.
Nascido na Bahia, numa família ilustre e culta, assistiu muito cedo à morte de sua mãe. São suas as palavras “Traduzi em verso a saudade de minha mãe”. A relação apaixonada e conturbada, que teve com a actriz de teatro portuguesa Eugénia Câmara, marcou toda a sua obra e foi uma afronta à sociedade conservadora de então. Eugénia foi uma grande fonte de inspiração para o autor e um marco incontornável na sua vida. Ao afastar-se da actriz, Castro Alves não voltou a recuperar o equilíbrio e alegria de outrora. Algum tempo mais tarde, sofreu um acidente de caça e, sem outra solução, amputou o pé. A par disto, não nos podemos esquecer da tuberculose que o acompanhou durante muitos anos e que o acabou por matar em 1871.
E eis que chegamos a 1999, ano em que Sílvio Tendler deu a conhecer a sua película Castro Alves - Retrato Falado do Poeta. Para aqueles que leram as últimas linhas e ficaram impressionados com a vida do escritor, recomendo vivamente este filme. Além de cumprir a função biográfica de forma precisa, esta obra fílmica remete-nos para o universo penoso de uma alma doente que conseguiu alimentar o seu optimismo e deixar-nos um dos melhores espólios literários da poesia escrita em português.

1 comentário:

Concha disse...

Ainda bem que nos desafias a desbravar vertentes menos comuns do cinema!

Perante tais descrições só posso estar cheia de vontade de ver esse filme. E então se a reconstituição histórica estiver bem feita... será a cereja em cima do bolo!

Emprestas-mo?