14 dezembro 2005

Formas de encontro no Vietname



Numa primeira análise, a obra Apocalypse Now de Francis Ford Coppola pode ser descrita como uma narrativa de viagem. No início, observamos a intimidade do capitão Willard em Saigão. Momentos depois, vemo-lo a ser transportado até aos Serviços Secretos de Nha Trang e, ao longo do filme, somos testemunhas da sua viagem pelo rio Nung num barco de patrulha da Marinha. De sequência em sequência, apercebemo-nos de que esta subida pelo rio é uma viagem através do inferno, da miséria, da injustiça, da loucura, do absurdo, da destruição, da mentira, do erro, do ódio e do horror.
Se recordarmos as palavras do General dos Serviços Secretos, “Todos os homens têm um ponto de ruptura, incluindo nós os dois. O Walt Kurtz atingiu o dele e enlouqueceu.”, compreendemos que a viagem de Apocalypse Now tem como destino este ponto de ruptura, ou seja, o encontro com o pior de nós mesmos. Assim, numa análise mais atenta, podemos descrever Apocalypse Now como um filme em que a noção de encontro adquire uma importância simbólica equivalente à noção de viagem.
O primeiro encontro entre Willard e Kurtz acontece durante o almoço em Nha Trang. Aqui, o capitão observa a fotografia do general, apercebe-se das enormes qualidades deste e ouve a sua voz através de gravações. Esta sequência, para além de estabelecer a primeira ligação entre os dois homens, permite que o espectador pressinta a importância da voz ao longo da película. No que toca à análise desta capacidade humana, destacaremos três vozes distintas: a do narrador, a da mãe de Clean e a de Kurtz.
Por um lado, os monólogos interiores do narrador, proferidos por um “eu” atormentado por dúvidas, acompanham todo o filme e funcionam como uma forma de nos aproximarmos de Willard e de o compreendermos. Por outro lado, a voz da mãe de Clean, que ouvimos uma única vez por altura do assassínio do filho, é paradigmática da guerra do Vietname. Toda a cena da morte de Clean possui uma enorme carga dramática que se adensa à medida que ouvimos a voz bondosa da mãe a falar do regresso do filho, do futuro deste e do presente que lhe vão oferecer. No entanto, não ficamos indiferentes ao contra-senso e ao absurdo que sobressaem deste episódio. Da mesma maneira que padecemos com a impressão de que não faz sentido que a voz da mãe se continue a ouvir à medida que o sangue de Clean se vai espalhando pelo barco, também sofremos com a sensação de que toda a guerra do Vietname é disparatada e não tem qualquer objectivo lógico.
Por último, analisemos a voz de Kurtz que possui um efeito quase hipnotizador em todas as personagens de Apocalypse Now. Os exemplos mais evidentes desta capacidade de provocar fascínio encontram-se nas afirmações do fotógrafo excêntrico (“Não se fala com o coronel… Ouvimo-lo.”, “Ele lê poesia alto. E tem uma voz, uma voz…”) e nas de Willard (“Tinha ouvido a voz dele na cassete e fiquei curioso, mas não conseguia ligar aquela voz a este homem.”).
A voz de Kurtz afirma-se desde os primeiros momentos do filme ao opor-se contra falsos valores e ao declarar-se contra qualquer mentira inventada pelos americanos para viverem com a consciência tranquila: “ E chamam-me assassino. Como se diz, quando os assassinos acusam o assassino? Mentimos. Mentimos e temos de ser piedosos para com os mentirosos. Esses poderosos… Odeio-os. Odeio-os.” / “Estou fora do alcance da tímida e enganosa moralidade deles e, por isso, não me preocupo.”
Paralelamente a isto, esta voz também surge em alguns dos momentos principais do filme. Quando se dá o primeiro encontro entre Willard e Kurtz, ouvimos a voz do coronel antes de visualizarmos o seu corpo. No momento em que o capitão se prepara para assassinar Kurtz, reparamos que o coronel se encontra a gravar a sua voz e, no fim do filme, no fim de tudo, é a voz de Kurtz que se ouve a sussurrar “O Horror… O Horror”.

Retomando a importância simbólica da noção de encontro, é no interior do barco que Willard, ao estudar o seu dossier, estabelece o segundo encontro impessoal com Kurtz. De documento em documento e de fotografia em fotografia, Willard ingressa num processo que pode ser descrito em três fases: a fase do conhecimento, a fase da identificação progressiva e a fase da assimilação entre Willard e Kurtz.
A primeira fase desenrola-se à medida que o capitão reúne conhecimentos sobre Kurtz e descobre pormenores da sua vida. Como é natural, Willard cria expectativas sobre o homem que tem de matar e começa a questionar a sua missão. Todos os episódios são pretexto para Willard reflectir sobre o coronel (“Se era assim que o Kilgore combatia, comecei a interrogar-me sobre o que teriam contra o Kurtz.” ).
Daqui, passamos para a fase em que Willard se identifica com o coronel, “Quanto mais lia e começava a compreender, mais o admirava.”, e em que imagina o encontro entre ambos: “Parte de mim tinha medo do que iria encontrar e do que iria fazer quando lá chegasse. Conhecia os riscos ou imaginava que sim, mas o que mais temia e se sobrepunha ao medo, era o desejo de enfrentá-lo.”
A terceira fase, intimamente relacionada com as outras duas, consiste num processo de assimilação entre Willard e Kurtz. Ao longo do filme, vamos tomando consciência de que o facto de Willard ter assimilado todo o tipo de informações sobre Kurtz fez com que começasse a agir e a pensar como o coronel.
No episódio em que a tripulação encontra um barco e decide revistá-lo, Willard actua da mesma forma que Kurtz agiria: mata a mulher com um tiro e manda prosseguir a viagem. Aliás, os seus pensamentos são bastante elucidativos e parecem ter saído da boca de Kurtz: “Era uma mentira e, quanto mais mentiras via, mais as odiava. Aqueles rapazes não voltariam a olhar para mim da mesma forma, mas senti que sabia uma ou duas coisas sobre o Kurtz que não vinham no dossier.”

No primeiro encontro pessoal entre ambos, vemos um Willard ajoelhado relativamente perto de um Kurtz que se encontra deitado. A luz, ou a falta dela, não permite que vejamos a cara do coronel. A pouco e pouco, depois de ouvirmos a voz de Kurtz e de nos apercebermos de que este se encontra doente, começamos a visualizar a cara que conhecíamos das fotografias. Kurtz mostra-se torturado pela guerra. No diálogo que se segue, Kurtz refere “Esperava alguém como tu.” e pergunta “Que esperavas?” mas Willard opta pelo silêncio face à pergunta de Kurtz.
Nos encontros seguintes, voltamos a tomar consciência da autoridade da voz do coronel. Uma das cenas primordiais de Apocalypse Now ocorre quando este lê a primeira parte do poema The Hollow Men, escrito por T. S. Eliot em 1925. O poema, redigido na primeira pessoa do plural, é também uma forma de Kurtz se encontrar com Willard e de lhe mostrar que enfrentam problemas análogos. (– We are the hollow men // We are the stuffed men // Leaning together -)

No encontro final, deparamo-nos com o ponto auge da assimilação exposta anteriormente. Depois de Kurtz morrer, Willard toma o seu lugar. Willard é Kurtz e toda a população o reconhece ao curvar-se perante ele. Com a arma do crime numa mão e com o livro de Kurtz na outra, os espectadores lembram-se novamente das palavras do General dos Serviços Secretos: “Sabe, Willard, nesta guerra, as coisas tornam-se confusas na selva. O poder, os ideais, a moralidade antiga e as necessidades militares práticas. Mas, na selva, com estes selvagens, deve ser uma tentação ser Deus.”

No entanto, este Willard, ao pegar na mão de Lance e ao abandonar aquele lugar, mostra-se superior a estas palavras e escapa à tentação de ser adorado como um deus por todos aqueles que antes tinham adorado Kurtz.

10 comentários:

Daniel Pereira disse...

Também podia ter deixado este filme no post anterior. Fico estupefacto com a maneira como o Kurtz se instala em nós desde o princípio do filme e com a tensão que esse facto cria e que acaba por nos hipnótizar. É dos filmes mais hipnóticos que conheço. E depois há as Valquírias naquela que é das mais genias sequências de todos os tempos.

Mafalda Azevedo disse...

É verdade!
Hipnotizador e genial.

Vodka e Valium 10 disse...

Não li nem quero ler: amanhã tenho a oportunidade de te ouvir dizer essas coisas todas.
Para depois as debitarmos no Bairro Alto, com a voz entramelada de uma jantar de Natal.

Até amanhã.

nuno disse...

a rodagem deste filme foi outro filme... fabulosa a cena em q embebedam o martin sheen no dia do seu aniversário para dar mais realismo à cena que acaba com ele a dar um murro no espelho no quarto. e cortou-se mesmo!

Ricardo Martins disse...

Penso que se tornou um lugar comum falar na cena das Valquírias como "genial", talvez por causa dos helicópteros e do Wagner. Para mim essa cena tem mais de patético e desesperado do que qualquer outra coisa. Porque é patética a escolha da música, porque é patético o contexto, porque é pateta aquele maravilhoso sargento interpretado pelo Robert Duvall, e ele querer apenas arranjar um lugar para surfar. Chamar monumental aquilo, seria aproximarmo-nos de uma atitude pro-fascista.

Apocalypse Now = ao maior dos filmes = o filme mais nihilista de todos os tempos

Abraço,
RM

Francisco Valente disse...

Por essa mesma e única razão é que a cena é genial.

C.S.A. disse...

Havia tanto a dizer sobre toda a carga simbólica. Seria um tratado. E precisamente porque se não esgota é um filme tão rico. Fiz no Legendas 2 posts que me permito deixar aqui:
http://apor.blogspot.com/2005/07/cinema-9-o-banho-lustral-o-beijo.html
e
http://apor.blogspot.com/2005/07/cinema-10-oiro-que-brilhas-em-sis.html

Mafalda Azevedo disse...

Grandes imagens C.S.A.! Obrigada.

De facto, o Apocalypse Now é uma obra cujo sentido não se esgota... Estava a lembrar-me do princípio do filme e de todos os problemas temporais que este levanta. Também dava um bom tópico de discussão!

Miguel Lourenço Pereia disse...

Excelente texto Mafalda...adorei esta reflexão sobre o Apocalypse..é um dos meus filmes preferidos do Copolla..um filme negro que se cola à nossa alma e que nos marca profundamente.

beijinhos

Hugo Alves disse...

Excelente e profundo texto.

Conforme já vai dito supra, Kurtz invade-nos desde o primeiro ao último frame. É assoberbante...

Para mim,pode resumir-se a uma viagem mórbida À loucura do ser humano...

Há um momento iconográfico inesquecível (é o primus inter pares): o som da Walkyrienritt de Wagner durante o lançamento de Napalm