12 setembro 2005

Resposta a Luís Miguel Oliveira

Luís Miguel Oliveira, crítico habitual do suplemento Y, escreveu a seguinte afirmação sobre o filme Os Psico-Detectives: O argumento não saiu das mãos de Charlie Kaufman mas podia muito bem ter saído.
Permita-me que lhe responda: não, nunca poderia ter saído das mãos de Charlie Kaufman. E porquê? Em primeiro lugar, convém que não caiamos no erro de confundir um disparate pegado (como a suposta comédia existencial Os Psico-Detectives) com uma obra séria que consegue manipular o absurdo ao ponto de o tornar convincente (e aqui, estou a referir-me aos argumentos escritos por Charlie Kaufman que tornaram possível a existência de grandes filmes como Being John Malkovich, Human Nature, Adaptation e Eternal Sunshine of the Spotless Mind).
Em segundo lugar, as histórias de Charlie Kaufman são objectos únicos no cinema. Se alguém conhecer algum argumentista que tenha arrojado tanto no que toca à concepção cénica e à organização temporal, avise-me por favor. Já Os Psico-Detectives, tradução lamentável de I Heart Huckabees, assemelha-se a muitas coisas mas nunca consegue ser nada. Assim que conhecemos a personagem principal, Albert Markovski, passa-nos pela ideia que poderíamos estar a ver uma película de Woody Allen. Momentos depois, quando observamos o par de detectives existencialistas e todas as suas técnicas bizarras, temos reminiscências do universo de Kaufman. Em ambos os casos, demoramos pouco tempo a esquecer tais sensações. Woody Allen e Charlie Kaufman nunca perderiam o controlo de uma história, tal como o Craig Schwartz de Being John Malkovich nunca perdia o controlo das suas marionetas.
Em Os Psico-Detectives, o realizador e argumentista David O. Russell vai acumulando informação e quando não sabe o que fazer com ela, impele as personagens a explodirem em ataques de histeria: Jude Law a chorar baba e ranho, Naomi Watts a ter atitudes de adolescente e Mark Wahlberg transformado num bombeiro com comportamentos próprios de um autista. Nada se resolve, nada se completa. A desculpa de se fazer um filme sobre coincidências não pode justificar tudo. Mais do que isso, nunca poderá chegar para confundir Os Psico-Detectives com um argumento de Charlie Kaufman. Depois de o filme acabar, só resta a memória de ter visto Isabelle Huppert e Dustin Hoffman, cujas enormes capacidades não são propriamente uma novidade.

6 comentários:

Rodrigo disse...

Não vi o filme (e saber que o Marky Mark aparece nesse filme e faz de bombeiro faz-me querer não vê-lo), mas o Woody Allen já perdeu o controlo de algumas histórias. Shadows and Fog e Small Time Crooks vêm-me à cabeça agora. Mas esses são exemplos negativos. O Charlie Kaufman também perde, mas duma forma deliciosa, o controlo de quase todas as histórias. Confessions of a Dangerous Mind e Adaptation são gloriosamente descontrolados em termos de história.

Mafalda Azevedo disse...

Nunca confundir descontrolo aparente com descontrolo evidente. Charlie Kaufman cria a ilusão de descontrolo sem nunca perder a rédea. No fim, tudo encaixa e isso só um génio para conseguir.

Rodrigo disse...

Daí ter usado o "duma forma deliciosa". Devia ter sido "de uma", eu sei.

João Costa Matos disse...

Perante uma lista infindavel de sites na internet, penso que faltava algo deste tipo, vejo que a Mafalda e os comentadores percebem do que falam! Espero que continues o bom trabalho que tens vindo a desenvolver pois cada vez mais é importante estarmos a par e passo de tudo o que é feito por este mundo fora, e este site sem duvida alguma ajuda-nos a acompanhar a setima arte!! Boa sorte e obrigado.

Anónimo disse...

Mafalda,

Belíssimo texto e ainda melhor defesa em comentário.

Jorey

JTC disse...

Gostei do comentário, é sempre bom ver outras opiniões sobre um filme, especialmente um como este!
Eu queria gostar deste filme, tem actores e actrizes que gosto e o facto de apenas passar numa sala em todo o país apelou-me ainda mais...
Contudo, saí confuso da sala de cinema, não sabia bem porquê, mas agora sei :)
Apesar de tudo ainda lhe dei 8/10 no IMDb, talvez por influência da má comédia que nos chega aos cinemas de uma forma constante ou pela originalidade indiscutível característica deste filme.