18 maio 2005

Uma óptima companhia

Olhando para o cartaz de In Good Company, somos levados a pensar que estamos na presença de mais um filme definível nas palavras leve e banal. Grande erro! In Good Company, graças ao seu comedimento e à sua despretensão, merece um lugar de destaque neste blog.
Prestemos atenção aos actores. Se existissem dúvidas quanto ao enorme talento de Scarlett Johansson, bastaria que comparássemos este desempenho ao de Lost in Translation. Em 2003, Scarlett Johansson descobriu novas formas de encarar a vida na companhia de Bill Murray. Agora, surge como filha adolescente de Dennis Quaid. Duas interpretações distintas e absolutamente perfeitas em parceria com dois actores da mesma geração.
Utilizou-se há pouco a palavra "comedimento" e é necessário regressar a ela. Não há um único espalhafato emocional neste filme que, afinal de contas, transpira emoções. A personagem de Topher Grace, toda ela envolvida em sofrimento, surge como um registo discreto de uma alma abandonada pelo pai, pela mulher, pelo novo amor e mesmo pela carreira. Seriam de esperar cenas de fazer chorar as pedras da calçada, não acham? Porém, aquilo que temos é um porsche continuamente amolgado e muitas noites mal dormidas. Toda esta sobriedade na dosagem das emoções do personagem, sem cair em escorregadelas e exageros depressivos, faz de Topher Grace uma autêntica revelação.
Em suma, In Good Company (demarque-se a ideia de despretensão) revelou-se uma boa surpresa. Por vezes, caímos no erro de subestimar a capacidade cinematográfica de agradar a assistência. Consciente disso, apetece-me sugerir este filme a todos aqueles que acreditam no cinema como um meio agradável de encarar a vida. E mais não escrevo! Vão ver e apareçam por cá!

9 comentários:

Concha disse...

Ainda bem que, apesar de cinéfila convicta, não te serves de padrões rígidos para avaliar da qualidade de um filme.

No entanto, parece-me que "In Good Company" vai para além de despretensioso... a mim soube-me a pouco. Penso que Scarlett Johansson é subaproveitada, não se comparando o seu papel com "Lost in Translation" ou mesmo com o recente "A Love Song for Bobby Long". Atenção, não estou a dizer que ela não representa bem!, simplesmente que o papel que lhe deram não lhe faz jus.

Por outro lado, todo o desenvolvimento da narrativa não é, a meu ver, suficientemente consistente.

Concordo com o que escreveste acerca da personagem de Topher Grace - ele é, de facto, um dos pontos altos do filme.

Enfim, "In good Company" agrada mas não preenche.

Mafalda Azevedo disse...

Olá Concha!
Estou a ver que te transformaste numa presença habitual aqui no Mise en Abyme. Fico muito contente!

In Good Company soube-me a bastante e, mais do que isso, preencheu-me. Ao contrário de ti, estou convencida de que o desenvolvimento da narrativa é totalmente consistente e equilibrado. Temos uma família tradicional, um local de trabalho e um outro agregado familiar, nada tradicional e demolido nas primeiras sequências do filme. A mim parece-me que estes três núcleos interagem perfeitamente, plenos de humanidade e plausibilidade. Por vezes, não há nada que mais me “preencha” do que ver películas como esta. Recordo-me agora de outras duas: Closer e Sideways. Também estas possuem personagens aparentemente banais que funcionam como espelho de nós próprios e que nos fazem ingressar num jogo alucinante de emoções em que, de repente, já somos nós que estamos no ecrã. Percebes o que quero dizer?
Além do mais, In Good Company possui essa mais-valia de que já falei no meu texto: a moderação. É tão raro encontrar filmes que apresentem pessoas infelizes sem as transformarem numas coitadinhas quase indignas… Topher Grace, com o seu humor refinado e a sua inteligência pragmática, surge-nos quase perdido num mundo profissional em que deseja acreditar. O seu escape acaba por ser uma adolescente que ouve os seus desabafos. As frases rápidas e secas de Topher Grace atingem-nos muito mais do que se o transformassem numa personagem inverosímil, cansativa e mesmo kitsch como aquela que Benicio del Toro interpreta nesse filme vazio de interesse a que se chamou 21 Gramas. E depois, há toda a admiração construída em volta de um homem mais velho a jogar com toda aquela vontade de socializar, de se sentir integrado em algo e de se entregar ao amor. (Inesquecível a cena em que o vemos quase assustado com a beleza de Scarlett…) Enfim! Resta-me adaptar uma frase do meu amigo Francisco Valente: Se apenas todos os filmes tivessem personagens assim!

Manel Fontes disse...

Começo por dar os meus parabéns ao blog, e orgulho-me muito de conhecer uma pessoa que escreve tão bem sobre o que mais gosta. Aproveito para te dizer que sou um inculto quanto à sétima arte, mas adoro ler os teus textos sobre cinema, porque têm muita imagem, quase nem necessito de ver o filme. Como experimentei deliciar-me nas tuas palavras, vou te confessar que vou tornar a fazê-lo mais vezes. Continua com esse amor à arte, e esse prazer por escrever.
Um grande beijo,
Manel

Emiliano disse...

Querida Mafalda,

Deixei-te uma mensagem por debaixo do post em que tens um cartaz de cinema a anunciar o teu blog, como se se tratasse de um filme.

Francisco

Anónimo disse...

Mafalda,

Não concordo com o elogio. Para mim, este filme vive de dois canastrões e de um remake fraco do papel da Scarlet no Lost: a loira esperta que estuda escrita creativa vs. a loira esperta que se licenciou em filosofia. Banal, banal, banal. Scarlet péssima. É o início do fim.


João (Bistro)

gonn1000 disse...

É um bom blockbuster, e confirma Paul Weitz como um realizador a ter em conta...

pedro disse...

porque é que vicês cinéfilos têm que fazer sempre tantas comparações?´É preciso um estudo comparativo de todas as representações da Scarlett Johansson para dizer se um filme é bom ou mau? Achei o filme "levezinho",mas bem construido e inteligente.Gostei muito.Já agora aproveito para mandar um abraço ao Francisco,que escreve muito bem mas só vai à Cinemateca.

Mafalda Azevedo disse...

Caro Pedro,
Claro que não é preciso um estudo comparativo sobre a carreira de uma actriz para redigir um texto sobre a qualidade de um filme. Além do mais, é sempre possível e legítimo criticar uma película escrevendo unicamente sobre ela.

No entanto, parece-me que uma crítica, que tente inserir um filme num determinado contexto ou que o compare a outros, pode levantar questões interessantes para serem discutidas no Mise en Abyme.
Obrigada pela visita!

Nabur disse...

Tenho que concordar com a Mafalda em tudo! Quanto à Constança e à sua opinião sobre a Scarlett Johansson, só posso usar aquela frase batida mas tão verdadeira: "não existem pequenos papeis, só pequenos actores".