28 julho 2005

Proposta de discussão - VI





É reconhecido por todos que a literatura e o cinema são formas de arte independentes mas é igualmente reconhecido que podemos estabelecer uma ponte entre ambas. Assim, proponho que reflictamos sobre as inúmeras adaptações cinematográficas que se têm feito com base em livros mediáticos.
Excluindo o facto de os livros serem, na esmagadora maioria das vezes, superiores ao resultado cinematográfico, proponho que recordemos a película O Nome da Rosa de Jean-Jacques Annaud. Neste caso, aconteceu-me ler o romance depois de ter visto o filme e isso teve como consequência visualizar a imagem de Sean Connery de cada vez que o escritor Umberto Eco dava vida ao monge franciscano Guilherme de Baskerville.
Por outro lado, pude ler as aventuras de Harry Potter antes da saga passar ao grande ecrã e isso proporcionou-me a oportunidade de imaginar livremente o aspecto físico das personagens. Se, pelo contrário, tivesse lido os livros depois de ver os filmes, passaria pelo desespero de não conseguir afastar a imagem de Daniel Radcliffe das páginas de J. K. Rowling.
A partir destes exemplos, lembrei-me de que poderíamos discutir sobre a capacidade inerente às adaptações cinematográficas de sufocarem a nossa imaginação e de nos privarem daquilo que a literatura pode oferecer.
Fico à espera das vossas opiniões!

8 comentários:

Turat Bartoli disse...

Olá, Mafalda(este é o meu 1º post aqui)

Bem, as adaptações literárias têm muito que se lhe diga no que toca respeito ao modo como o filme ou o livro nos atingem quando temos ou não presente um deles no momento em que os saboreamos. Acho que é relativo o quão prejudicial ou benéfico é para a experiência entrar em contacto primeiro com algum deles, acho que depende de cada um de nós e de como encaramos os dois ramos. Por exemplo, 1 pessoa pode preferir ler 1 livro e emocionar-se mais ao lembrar-se de tal cena marcante no filme, como que 1 redescoberta apaixonante ou ao contrário, preferir vaguear a mente e criar o seu mundo exclusivo. Eu, eu como prefiro o cinema à literatura acho preferível ver o filme primeiro dado que o impacto cinematográfico costuma ser superior ao literário e ainda, o factor surpresa ajuda no aspecto marcante do filme. Mas... ler 1 livro o qual sabemos como irá acabar também reduz bastante a piada, o positivo é tanto num campo como noutro haverem muitos aspectos a descobrir haja ou não fidelidade de adaptação, enfim...

Cumprimentos

Bufas disse...

Ora bem, antes de mais nada, bem vinda de volta.
As adaptações cinematográficas de obras de literatura têm sem dúvida o seu valor, quanto mais não seja de esforço e imaginação para adaptar o pensamento de outros ao do realizador (ou melhor ainda, ao do argumentista que faz a transição da obra). É um pouco como os pintores fazem ao propor a sua visão de quadros que os marcam (é um pouco a velha historia de que tudo já foi criado, agora são só visões diferentes do que já existe). O facto de gostarmos ou não da adaptação, muitas vezes prende-se mais com o facto de o ponto de vista do filme ser mais ou menos parecido com a nossa interpretação do livro.
Outro tipo de adaptações do cinema que também passam a condicionar a nossa visão são as epopeias. Por exemplo, quem é que consegue pensar em Espartacus e não ver Kirk Douglas?
Pronto hoje estiquei-me, foi um comentário grande como o caneco…

Mafalda Azevedo disse...

Turat Bartoli,
Espero que este seja o primeiro de muitos.

Bufas,
Estou de volta mas ainda não é definitivamente. Quanto ao Kirk Douglas... Teve muita graça mencionares o nome dele! Para mim, Kirk Douglas é sinónimo de Ulisses, no filme do Mario Camerini.
(Continua a esticar-te!)

Obrigada aos dois!
Até breve!

Hugo Alves disse...

Sempre que se fala de literatura e cinema, lembro-me da adaptação de Alexis Zorbas (do grego Nikos Kazantzakis. Em português foi traduzido com o título "O Bom Demónio") feita por Michael Cacoyannis em "Zorba the Greek". É um dos raros exemplos em que a adaptação pouco perde para o original. Motivo: o genial Anthony Quinn, que tem uma performance fenomenal.

Para o sucesso contribui também, creio, o facto de terem sido utilizados os habitantes de Creta como figurantes no filme. É um facto que confere maior realismo à narrativa...

A excelência da adaptação deve-se também ao facto de o livro ser seguido passo a passo, à excepção de dois episódios: (i) a visão do Mundo por Zorba, que abre o livro (e é uma cena cortada do filme) e (ii) a recordação das aventuras de Zorba na Rússia.

Tiago Tejo disse...

Parece-me uma óptima proposta de discussão.

Eu tenho o meu exemplo, ainda que nunca tenha lido o livro. Falo do 2001: Odisseia no Espaço, realizado pelo Stanley Kubrick que, por sua vez, adaptou do livro de Arthur C. Clarke.

Confirmo que na maioria dos casos, o contacto com o filme fica muito distante do contacto com o livro. É essa a magia de um pedaço de papel escrito. No entanto, acredito que no caso do filme que referi (2001: Odisseia no Espaço) a disparidade entre casos não seja dessa forma, ou não exista até.

Não que ao ler o livro se tenha a exacta sensação e se visualize as mesmas coisa que quando virmos o filme. Nada disso. Acredito que seja um filme em que os verdadeiros pormenores não ficam tão presos a nós, como o é a cara de determinada personagem.

Refira-se novamente que ainda não li o livro e poderei refutar tudo isto quando o ler. Aliás, com o que gosto do filme acho que tão cedo não vou ler o livro.

Noutro plano, é de salientar a importância de certos filmes ao levarem determinados autores até às pessoas que jamais ouviriam falar no nome de determinado escritor. Por exemplo, o caso mais recente é do nome do autor d'A Guerra dos Mundos, H.G. Wells, que ainda que seja um escritor famosíssimo, tenho a certeza que chegou a mais alguns através do filme. Pelo menos, assim o espero.

Acho que fiz entender de forma clara os meus dois pontos.

Mafalada, abraços.
Este blog tem de continuar.

Tiago Tejo

JTC disse...

Olá,

Este tema dava uma discussão bastante longa e muito interessante a qual já tive oportunidade de ter com diversas pessoas.
Não vou fazer uma dissertação extensa pois posso resumir a minha opinião sobre o assunto em pontos muito claros e simples:
- imaginação, a imaginação não tem barreiras (ao contrário do cinema) assim, a dimensão de um livro será sempre maior, em todos os sentidos, que um filme. Claro que isto depende da capacidade de abstracção de cada um;
- personagens, a probabilidade da escolha de actores não satisfazer os nossos gostos é muito elevada o que torna a experiência muito menos interessante;
- 1ºlivro depois filme, sobretudo pelo primeiro ponto apontado. Cada caso é um caso, MAS, sinceramente acho que se torna muito difícil ler um livro depois de ter visto o filme, as personagens já têm todas uma cara, os locais, edifícios, paisagens, eventos já foram todos definidos e delineados...e ainda por cima já se sabe o fim.É que um filme dura 2h, agora ler um livro durante dias ou semanas já sabendo o fim não é para mim.

Termino com um exemplo bastante comercial mas também adequado "The Lord of the Rings". Li o livro (em inglês) que é impressionante e cuja escrita é imperdível e depois vi o filme que, mais uma vez, fica atrás do livro mas é bastante interessante.O livro é a obra prima, o filme nunca passa de adaptação (se calhar estou a ser demasiado rígido).

Hugo Alves disse...

Ainda a propósito de adaptações: lembram-se de "O leopardo" (il gattopardo) de Tomasi di Lampedusa? Foi adaptado ao cinema por Luchino Visconti (filme homónimo). Outro dos exemplos em que cinema e literatura fazem o casamento (quase) perfeito.

A propósito do Spartacus: podemos lembrar-nos do Kirk Douglas, mas o filme, mau grado a realização de Kubrik (que, literalmente,foi um "realizador de aluguer"), o filme perde muito para o livro homónimno de Howard Fast... acho eu.

Mafalda Azevedo disse...

Devo assumir que fiquei surpreendida com a adesão que esta discussão teve. Obrigada a todos!

Já tive muitas conversas sobre a saga The Lord of the Rings e calha-me sempre ser a defensora do trabalho do Peter Jackson. Conheço bem os livros e acho-os fantásticos mas os filmes têm qualquer coisa de viciante...

O Luchino Visconti é um dos realizadores mais geniais de sempre. A propósito dele, lembrei-me de mais um "casamento quase perfeito": Roman Polanski na adaptação de Rosemary's Baby de Ira Levin.

Até breve!