15 julho 2005

Obrigada Cinemateca



Há poucos momentos assim na vida de um português. Entrar numa sala de cinema, esperar pelo apagar das luzes e, de repente, aceder a um universo simultaneamente subversivo e machista de uma Lisboa suja no final da década de 70. Kilas, o mau da fita, filme projectado ontem pela Cinemateca Portuguesa, garantiu este momento e ofereceu gargalhadas genuínas a um público que se identificou com ambientes e linguagens aparentemente extintos.
Em tom de comédia mas muitas vezes em tom verdadeiramente constrangedor, Kilas, o mau da fita vai fazendo com que esbocemos um sorriso de cada vez que um actor entra em cena. Em apenas 120 minutos, revimos Lia Gama como uma prostituta robusta e admiradora de Rita Hayworth, Mário Viegas num desempenho que reafirmou o seu enorme talento, Ana Bola ainda a tactear o terreno da interpretação e Adelaide Ferreira anos antes do seu sucesso musical Baby Suicida.
Numa Lisboa de miradouros, tascas castiças, galhardetes do Benfica, carcaças com manteiga, táxis pretos e verdes, músicas do Sérgio Godinho e recordações cinéfilas, José Fonseca e Costa consegue aquilo que muitos afirmam não existir no cinema português: uma película semelhante a um filme de gangsters com sangue, aventura e sexo. Relembremos a sequência em que Ana (desempenho memorável de Paula Guedes) é violada por um grupo de marginais. Vê-la deitada, coberta apenas por um lençol, apontamento que nos recorda Cristo abandonado na cruz, aproxima-nos de uma quase religiosidade blasfema em que também Kilas “lava as mãos” e entrega a mulher à sofreguidão masculina.
Por tudo isto, apetece-nos reafirmar que sessões como esta, infelizmente só possíveis na Cinemateca, deveriam ser habituais noutras salas comerciais e mesmo nos canais de televisão. É urgente recordar os verdadeiros clássicos do nosso cinema.

(Fica apenas uma dúvida. Porquê dobrar a voz do actor brasileiro Lima Duarte? Terá sido pelas mesmas razões que levaram o realizador Jorge Silva Melo a dobrar a voz de Ángela Molina no filme Coitado do Jorge?)

11 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado Mafalda.

Jorey

Sofia Moreno disse...

Olá Mafaldinha!!!!! És muito divertida e o teu blog é o máximo! esta mensagem é só para te dar um beijinho. não... um BEIJÃO! Parabéns pelo teu blog e espero que te continues a interessar cada vez mais por cinema porque esta área é mesmo a tua cara! ;) Tu e o cinema fazem o par perfeito! Beijinhos e tudo de bom para ti.

cp disse...

Bom! Era só para agradecer á minha professora Fafazinha!!!! Muito obrigado, atingi o que queria!! Tive 13, o que sobra e basta!

Muitos beijinhos do explicando!!!!

C.S.A. disse...

Quando o filme estreou no circuito comercial, foi assim que o senti. Excelente texto para a minha memória.
Obrigado.

Tiago Tejo disse...

Olá minha cara. :)

Deste filme, para além da sua existência, só conhecia a banda sonora a cargo de Sérgio Godinho. O que, para mim, é um bom indício que me desperta a curiosidade pela película.

Quanto à crítica feita à falta de memória cinéfila nacional, não preciso ver o filme para me pôr na luta contra ela. Tens total razão.

Até breve.
Abraços.

Bufas disse...

Finalmente um filme que vi!
Kilas é um filme agri-doce, com apontamentos cómicos e ao mesmo tempo com momentos tão crus que nos fazem quase desviar oos olhos do ecran (como a cena da violação).
É sem dúvida um filme com F grande.
Já agora, gostava que tivesses feito referencia à ousadia do realizador, afinal não podemos esquecer que se trata de uma pelicula com 25 anos e que no entanto tem cenas que ainda hoje seriam não só consideradas chocantes como censuraveis, Kilas é assim um grito de liberdade numa época em que se estava a aprender a dizer essa palavra.

Lídia Pereira disse...

ena, estava a ver se encontrava uma imagem do filme "infidelidade" de liv ullmann e dei com o teu blogue, super interessante sobre cinema. tens sorte de viver em Lisboa, com a Cinemateca por perto, que inveja (boa)! voltarei cá mais vezes. :-)

Cassiopeia disse...

Não fui ver o Kilas, mas por tantas e todas as vezes que fui, por tudo o que me ofereceu e continuará a oferecer, por ter despertado em mim o amor eterno pela sétima arte desde os sete anos, obrigada, Cinemateca! Obrigada, obrigada, obrigada...
Beijinhos

Miguel Lourenço Pereia disse...

Os meus sinceros parabens por este espaço maravilhoso, onde o cinema é lei.
Textos belissimos sobre episódios marcantes da história da 7º arte são de facto um cartão de visita extremamente sedutor. Parabens pela paixão, pela expressão desse imenso amor, e por partilharem isso com todos nós.

Hugo Alves disse...

É um belo dum filme de facto. Como curiosidade, registe-se o facto de um dos sript writters (o único?) ser Tabajara Ruas, um escritor brasileiro que, à época, estava no exílio.

Tabajara Ruas é hoje (já começva a ser nessa altura) um dos mais reputados escritores da actualidade. Hoje é, também, produtor e realizador de cinema. Aliás, José Fonseca e Costa adaptou um romance de Ruas, recentemente, para o cinema ("O fascínio")

Mafalda Azevedo disse...

Caro Hugo R. Alves,

Muito obrigada pelos comentários e pelas visitas frequentes. Já que falou no Tabajara Ruas, gostava de o convidar a ler o texto que escrevi aqui no Mise en Abyme. É o primeiro texto dos arquivos de Janeiro.
Até breve!