20 fevereiro 2006

Momento de pausa



Quero viver no mundo do Nicholas Ray. Um mundo onde há lugar para marginais e falhados. Um mundo que não se limita a integrar os excluídos da sociedade mas que lhes oferece um pódio para que possam ser reconhecidos como verdadeiros heróis.
Quero viver rodeada por mulheres que acreditam no amor e que o vivem até às últimas consequências. Quero conhecer a Keechie do They Live by Night, a Mary Malden do On Dangerous Ground, a Vienna do Johnny Guitar e a Zee do The True Story of Jesse James.
Quero aprender a sobreviver à dimensão trágica da vida, quero viver tal e qual como nos seus filmes: experimentar cada segundo de forma pulsante. Quero adormecer num western, acordar num film noir e viajar num road movie. Quero ser parte do dramatismo e do lirismo de Ray.
Quero atravessar o seu mundo, ser testemunha das suas perseguições. Quero mudar-me para o seu cinema e ficar lá até me apetecer voltar.

8 comentários:

Ricardo Martins disse...

Belíssimo e sentido texto.

Eu já encontrei um Johnny Guitar, uma Keechie, um capitão Leigh, um Dix Steele, um Jim e uma Judy.

Estão todos os dias à nossa frente, à secretária, no prédio ao lado, na lojinha da esquina, num olhar que por vezes ignoramos, mas que quando voltamos a pensar nisso, poderá já ser tarde.

"We can't go home again"
"I contradict myself, i always contradict myself"

Hugo Alves disse...

O Ricardo disse tudo ;)

Esqueçamos a máxima: "You can wake up now, the universe has ended",(de "Rebel without a cause") frase que detesto . Apenas por ser verdadeira... vamos embarcar no sonho então (como diria Sebastião da Gama) e ocupar o mundo de Ray, tão mais intenso e verdadeiro.

Portunhol disse...

Lindo texto Mafalda... Não paras de me surpreender!

Vodka e Valium 10 disse...

Gostava de viver no mundo do Tim Burton em que se pode ser mau porque todas as pessoas são más. Quero ser o Jack Skellington e estar apaixonado por uma boneca de trapos que tem um enchimento de folhas de plátano.

Quero não morrer por já estar morto, quero reoubar o Natal e desfazer o Woogie Boogie a puxar uma linha da roupa dele.

Filipa Blanc de Sousa disse...

Queria dizer-te que adorei este último post "Momento de Pausa". Achei-o mesmo inspirador, e deixou-me cheia de curiosidade de conhecer os filmes do Nicholas Ray!

Beijinhos Grandes

Tiago Tejo disse...

Eu nunca me cruzei com nenhuma dessas personagens. Sim, eu sou um cinéfilo muito incompleto. Mas também afirmo: Hei-de cruzar.

E este texto e respectivos comentários fizeram com que sinta que esse cruzamento será ligeiramente acelerado.

Até mais.

Joana disse...

Très beau texte

H. disse...

Não conhecer efectivamente nenhum Nicholas Ray sem ser o Rebel Without a Cause é daqueles crimes que não me perdoo. Todos os seus títulos e sinopses que leio me tocam imenso e algo que me diz que amarei as suas obras como a que imortalizou o James Dean... Este teu texto veio-me lembrar disso mesmo...