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Há poucos momentos assim na vida de um português. Entrar numa sala de cinema, esperar pelo apagar das luzes e, de repente, aceder a um universo simultaneamente subversivo e machista de uma Lisboa suja no final da década de 70.
Kilas, o mau da fita, filme projectado ontem pela Cinemateca Portuguesa, garantiu este momento e ofereceu gargalhadas genuínas a um público que se identificou com ambientes e linguagens aparentemente extintos.
Em tom de comédia mas muitas vezes em tom verdadeiramente constrangedor,
Kilas, o mau da fita vai fazendo com que esbocemos um sorriso de cada vez que um actor entra em cena. Em apenas 120 minutos, revimos Lia Gama como uma prostituta robusta e admiradora de Rita Hayworth, Mário Viegas num desempenho que reafirmou o seu enorme talento, Ana Bola ainda a tactear o terreno da interpretação e Adelaide Ferreira anos antes do seu sucesso
musical Baby Suicida.
Numa Lisboa de miradouros, tascas castiças, galhardetes do Benfica, carcaças com manteiga, táxis pretos e verdes, músicas do Sérgio Godinho e recordações cinéfilas, José Fonseca e Costa consegue aquilo que muitos afirmam não existir no cinema português: uma película semelhante a um filme de gangsters com sangue, aventura e sexo. Relembremos a sequência em que Ana (desempenho memorável de Paula Guedes) é violada por um grupo de marginais. Vê-la deitada, coberta apenas por um lençol, apontamento que nos recorda Cristo abandonado na cruz, aproxima-nos de uma quase religiosidade blasfema em que também Kilas “lava as mãos” e entrega a mulher à sofreguidão masculina.
Por tudo isto, apetece-nos reafirmar que sessões como esta, infelizmente só possíveis na Cinemateca, deveriam ser habituais noutras salas comerciais e mesmo nos canais de televisão. É urgente recordar os verdadeiros clássicos do nosso cinema.
(Fica apenas uma dúvida. Porquê dobrar a voz do actor brasileiro Lima Duarte? Terá sido pelas mesmas razões que levaram o realizador Jorge Silva Melo a dobrar a voz de Ángela Molina no filme Coitado do Jorge?)