03 setembro 2006

Exercício “poético”



Já gastei as palavras pela rua,
Tantos elogios, tantas estupefacções,
E o que ficou é uma torturante admiração pelo teu talento.
Gastei os olhos com o sal das lágrimas,
Gastei-os contigo por seres Charlotte
- I just don’t know what am I supposed to be -
Voltei a gastá-los quando decidiste ser Pursy Will
- But I really don't want to know

Meto as mãos na memória e recordo-me de ti naquela fotografia
A mais perfeita de todas
- Just one moment can change everything

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que as tuas personagens eram só minhas,
Era no tempo em que eu acreditava que as tuas personagens eram só minhas.
Hoje são “apenas” personagens.
Não é pouco, mas é verdade,
Personagens minhas e de todos.

Conheci-te quando eras Rebecca.
Acho que te conheci quando eras Rebecca.
Ou terá sido quando eras Rachael e o piano teimava em não soar bem?
Já não sei. Também já não importa.
O passado é inútil como um trapo.
Aquilo que interessa é que continuas a ser.
És Griet, Meg, Alex, Nola e até mesmo Two Delta.
Pouco me importa. Desde que permaneças.

Até breve.

Fotografia retirada daqui.
Poema original de Eugénio de Andrade.

14 comentários:

Miguel Marujo disse...

Agradeço os destaques. E a "ilustração" por palavras acertada para esta imagem!

Mafalda Azevedo disse...

Obrigada eu pelas fotografias fantásticas!

Miguel Marujo disse...

Remate-se o pinguepongue: obrigado também por mais este elogio. ;)

H. disse...

perfeito, perfeito...
é isso mesmo...

Mafalda Azevedo disse...

Obrigada H.! :)

Confesso que, desde ontem, tenho descansado da imagem de Scarlett Johansson e ando completamente obcecada pela interpretação de Penélope Cruz. Nunca a tinha levado a sério… Nunca mesmo. Nem em Amenábar, nem em Almodóvar e, claro, nunca em Crowe… E agora, apanhada desprevenida, vejo-me fascinada por esta Raimunda.

Os cinéfilos que escrevam o que quiserem (cada vez vejo mais filmes e cada vez me vejo menos como uma “cinéfila”) mas este Volver é um filme extraordinário. Do princípio ao fim. Sensível, catártico e sincero. Mais verdadeiro, mais puro e mais franco do que a vida.

Voltei a querer viver no cinema de alguém. Abrir a porta, ouvir a voz de Irene, abraçá-la. Não interessa se está viva ou se está morta. Está ali e isso é tudo. Quem me dera ter uma oportunidade dessas.

"Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais."

Amália Rodrigues

"Volver, con la frente marchita, las nieves del tiempo platearon mi sien"

Lua Obscura disse...

Questão/desafio sobre os filmes de Almodóvar!!!

Julio Bezerra disse...

Mafalda,
Tudo bem? Escrevo aqui do Brasil. Frequento regurlarmente o Mise-en-abyme... Gostaria de te convidar a conhecer o blog que criei recentemente, chama-se Kinos. Bom, sinta-se à vontade para visitá-lo.
http://www.cinekinos.blogspot.com

Hugo Alves disse...

Mafalda: afinal o que é a cinefilia? Cada vez mais acho que já não cinéfilos como aqueles que cunharam o t ermo, os turcos dos cahiers. Já não há cinefilia. Apenas algo diferente. (isto diz um senhor chamado Antoine de Baecque que escreve muito sobre isso. E tem razão). E olha que és mais "cinéfila" do que muitos que se auto-qualificam como tal. :-)

Quanto à Penélope, acho que só fica bem porque traz à memória algumas das divas do neo-relaismo (à cabeça Anna Magnani, que até é projectada no filme).

Mafalda Azevedo disse...

Bom dia Julio Bezerra!
Muito obrigada pelas visitas e pelo comentário. Já visitei o Kinos.
Volta sempre!


Hugo! Há quanto tempo…
Hoje em dia, quando reflicto no conceito de cinefilia, raramente penso nos cahiers du cinema. Aquilo que faço é reflectir sobre o grupo de jovens cinéfilos (do qual tu e eu fazemos parte) que devora cinema, reflecte sobre cinema e que, inclusivamente, partilha os seus escritos em blogues e adere a discussões sobre os mesmos. (Não deixa de ser interessante pensar neste fenómeno e neste amor que nos une de alguma forma…)
No entanto, à medida que vejo mais e mais filmes, sinto-me cada vez menos autorizada para debitar sentenças sobre os mesmos (Estranho? Poderá ser apenas uma fase…). Às vezes, quando leio blogues, sinto que os apaixonados pela sétima arte utilizam essa paixão como um meio de legitimar toda e qualquer opinião… Daí que vá sentido um certo distanciamento entre mim e o novo conceito de cinefilia.

Quanto à Penélope… É tão agradável e genuíno ouvi-la falar espanhol… E claro que concordo contigo e com o teu texto. Este Volver é o regresso de Almodóvar e do Cinema. Tal como a ti, vieram-me à cabeça Visconti e Hitchcock. Mas este Almodóvar cita os clássicos e acrescenta-lhes a sua assinatura. Os clássicos estão lá (e só poderiam estar…) mas também estão lá a sensibilidade, o alvoroço e o possidónio desse génio espanhol.

(E por falar em génios… Há um senhor italiano que tem saudades de Chaves…)

Julio Bezerra disse...

Mafalda e Hugo,
Gostaria aí de apresentar alguns adendos sobre essa questão da cinefilia. Que ela, tal como conhecíamos, acabou, isto é fato. O que me irrita é que gente como Antoine de Baecque lembram disso com uma nostalgia melancólia que se esgota em si mesma. Essa constatação funciona por vezes como uma argumento para desmerecer o cinema de hoje. E pra mim (25 anos), que passei a acompanhar o cinema num período em que a tal cinefilia já se encontrava em estado terminal, não faz nenhum sentido levar esse discurso adiante.
Mafalda, não entendo que vc disgoste dos blogueiros que utilizam a paixão pelo cinema como um meio de legitimar toda e qualquer opinião sobre cinema. Entendo se vc estender isso aos criticos. Estes sim erra toda vez que se atribui a posição de julgador do talento ou da mediocridade do cineasta, como se os críticos formassem um conselho de jurados, a absolverem ou condenarem o realizador. Mas Blogueiros não são criticos. Talvez nem devam ser.
desculpe-me pelo enorme post...

Mafalda Azevedo disse...

Caro Julio,

Ponto 1 – De uma coisa tenho a certeza: alguns dos blogueiros de hoje serão os críticos de amanhã.

Ponto 2 – Ao contrário da maior parte das pessoas, respeito (e muito!) o trabalho de alguns críticos. Pessoas como João Benard da Costa, Mário Jorge Torres e Jorge Mourinha (para dar exemplos de três gerações de crítica portuguesa) respeitam o cinema, têm bases sólidas de conhecimento e escrevem com uma correcção e um entusiasmo raros.

Ponto 3 – O meu medo é que alguns dos blogueiros de hoje, cheios de amor pelo cinema, continuem a escrever com a mesma liberdade de agora e acabem por ser críticos medíocres.

Até breve!
Mafalda

Hugo Alves disse...

MAfalda, sabes como é o Mestrado tem-me ocupado e muito (o que vale é que a parte I acaba amanhã oficialmente com a entrega dos trabalhos!! :-))

Senhores italianos com saudades de Chaves? Da minha Chaves?? Traduz lá isso sff :-)

Partilho do teu receio relativamente a alguns desses críticos. Se compararmos a blogosfera portuguesa sobre Cinema e a brasileira, p. ex., vemos que estamos bastante atrás. Regra geral, por lá escreve-se mais, tem-se uma mente mais aberta e não se é tão afirmativo/conclusivo nas críticas. PAra além do mais, n~~ao se vêm tatnos pedaços de ar escritos (para usar a frase que o Tiago Tejo uma vez usou na Cinemateca). Quanto a esses críticos, eu acrescentava o LMO. Mas isso já são gostos...

Agora o acrescento: boa parte destes bloggeiros "críticos" (também há críticos, claro) tem um grande defeito: as referências cinéfilas começam na década de '80, o que é um pecado gravíssimo. Pois mostra desconhecimento. Pior, alguns nem querem ver (até há por aí um - bastante lido - que diz não conhece a obra de Visconti. Só não explica se quer conhecer. Se a primeira frase é má, caso se confirme o não querer ver, é uma asneira monumental... (sim é o mesmo que pôs Saraband na lista de piores...)

Francisco Valente disse...

Em relação à menção dos Cahiers du Cinéma - é uma publicação que teve o seu auge num período conhecido e que deu ao cinema muitos bons realizadores e muitas ideias "novas". Mas hoje em dia não se percebe nada do que escrevem. Muito mais interessante é o formato da rival Positif.

Anónimo disse...

"Afinal a simplicidade das palavras é que dão valor as cores do Mundo"