04 junho 2006

Um murro no estômago



Sobre o seu filme, Miguel Clara Vasconcelos terá dito que não queria comparações com Belarmino de Fernando Lopes. A pergunta que se coloca é o porquê desta renúncia a um sóbrio antepassado comprovativo de que os cineastas têm filmado o boxe como quem observa um espectáculo inquietante. Senão, recordemos por breves instantes Jake La Motta de Raging Bull e a forma como Martin Scorsese transformou a violência no meio de expressão do seu protagonista. Escusamos até de viajar tantos anos na história do cinema quando podemos simplesmente recordar o último de Clint Eastwood, Million Dollar Baby, ainda aqui tão perto.
Mas regressemos a Documento Boxe, motivo pelo qual iniciámos este texto. Nascido em Lisboa em 1971, ano do célebre combate de boxe Frazier vs. Ali, Miguel Clara Vasconcelos foi vencedor do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde. À partida, parece-nos que este documentário é mais um filme a transmitir esse fascínio pelo boxe que tem marcado a sétima arte. Porém, mais do que isso, Documento Boxe insere-se numa cultura documental portuguesa que tem dado a conhecer um Portugal quase ignorado.
Compreender Documento Boxe implica que o relacionemos com documentários como À Flor da Pele, realizado por Catarina Mourão, e Gosto de Ti Como És, assinado por Sílvia Firmino. Em conjunto, estes filmes são representativos da vontade de mostrar um Portugal menos evidente aos espectadores e de o desmistificar, apontando o real sem artifícios. Neste gesto de filmar um país simultaneamente genuíno e castiço, a lembrar desejos neo-realistas de outros tempos, reside o problema de os espectadores não estarem preparados para o aceitar.
E assim, caminhando fugazmente por momentos cinematográficos, regressamos a Documento Boxe. No momento em que conhecemos Jorge Pina, protagonista deste documentário, já estamos familiarizados com o mundo do boxe português. A câmara do realizador proporcionou-nos que fossemos testemunhas ocultas das pesagens dos atletas e do convívio entre treinadores e pugilistas. Ao contrário de Scorsese, Miguel Clara Vasconcelos apresenta-nos um protagonista que se exprime através de palavras e que nos conta várias histórias.
Preparemo-nos pois para o receber de braços abertos, dispostos a inesperados murros no estômago. “Vais ler e vais gostar da história”, diz-nos o pugilista. “Vão ver e vão gostar da história”, digo-vos eu. Todas estas breves referências apoiam a conclusão de que esta história de Jorge Pina deve ser entendida como parte integrante de um novo cinema português que precisa de espaço e de espectadores para se poder definir e desenvolver. Desbravando caminhos, experimentando diferentes estéticas que nem sempre recebem elogios, a fotografia de Sérgio Brás d’ Almeida neste documentário é exemplificativa disto mesmo, assim cresce o nosso cinema.

2 comentários:

Portunhol disse...

Neste dia de Camões, Portunhol deseja que Portugal continue a "ler bom cinema". Alguém disse: "Keep it going". Está cada vez melhor.

Mafalda Azevedo disse...

Querida amiga,
Cada vez melhor não sei mesmo se estará… Estou numa fase em que tenho tão pouco tempo livre que o Mise en Abyme tem andado um bocadinho abandonado...
Muito obrigada pelas visitas e pelo apoio! :)