06 agosto 2005

Há planos assim - III



Por entre sorrisos, silêncios e saudades, Cinema Paraíso irrompe como uma demonstração de bom cinema, de humanidade, de cumplicidade e de compreensão. Aqui, mais do que nunca, apercebemo-nos de que cinema é sinónimo de vida.
Cinema Paraíso surge então como um espelho de nós mesmos, enquanto seres dedicados ao amor e capazes de devorar cinema. Em nenhum outro filme pudemos assistir a uma demonstração tão genuína do que é o amor pela sétima arte. Um amor que nasce na infância e que acompanhará o protagonista. Vemo-lo tal e qual como no plano escolhido mas comovemo-nos com aquilo que não vemos: um Salvatore de meia-idade que se encontra em Roma a recordar a altura em que conheceu o amor. Mais uma vez o amor. Digamo-lo sem qualquer tipo de reservas: Cinema Paraíso é uma homenagem ao amor nas suas formas mais puras – a amizade ao inseparável Alfredo, a dedicação à arte e a devoção ao amor da sua vida. Por silêncios, por aquilo que não se diz mas que se compreende, assim segue Cinema Paraíso.
Sujeito a variadíssimos níveis de interpretação, esta obra-prima do actual cinema italiano* relembra-nos a enorme pobreza trazida pela guerra. Para fugir a ela, nem que fosse por algumas horas, os habitantes da vila escolheram acreditar no cinema e vivê-lo intensamente. E porquê? Porque o cinema concede a oportunidade de vivermos a nossa vida ou outra qualquer.
* Só comparável a O Carteiro de Pablo Neruda, obra-prima italiana, que conta igualmente com a prestação desse actor inesquecível chamado Philippe Noiret.

12 comentários:

C.S.A. disse...

Daquilo que gosto na sua maneira de escrever e de «VER» é por coisas como isto: «Por silêncios, por aquilo que não se diz mas se compreende...»
Obrigado.

Turat Bartoli disse...

Subscrevo o elogio à escrita pertinentemente bela.

Cumps

Hugo Alves disse...

Uma das grandes virtudes de Cinema Paradiso (apenas uma das muitas virtudes) prende-se com o facto de mostrar o encanto - e a força! - que o cinema pode ter sobre as pessoas.

Para além disso, tem ainda o final inesquecível em que vemos Toto (Jacques Perrin) chorando copiosamente e rindo quando vê os fotogramas que Alfredo (Philippe Noiret) juntou. É um belo retrato acerca de uma recordação sobre o passado, bem resumida nas palavras da mãe de Toto: "ligo-te e atende sempre uma mulher diferente. Nenhuma delas tem a voz de quem te ama..." Ao de leve, ou talvez não, Cinema Paraíso põe a nu um dos maiores problemas da sociedade actual: esses difíceis (des)amores, a par da quase ausência de verdadeiros afectos e emoções (em comparação com a infância pobre, mas cheia de sentimentos que Toto teve)...

PS - Il postino também é lindíssimo, mas perde perante a total originalide de "Cinema Paraíso" (Il postino é baseado no raomance homónimo de Skármeta). Em ambos Noiret está inexcedível e inesquecível.

PS II - (alonguei-me, perdão) o recém saído DVD de Cinema Paraíso é imperdível, pois a par da versão original, traz como extra a versão do realizador.

Manuel disse...

Não há muito mais a acrescentar, mas não quero deixar passar a oportunidade de dizer que foi das coisas mais bonitas que vi na vida. Eu sei que estou a ser repetitivo, mas nunca é demais dizer que Philippe Noiret (sublime no "Il postino") é verdadeiramente inesquecível...

Cassiopeia disse...

Cara Mafalda,
Embora concorde com a tua análise, parece-me que há diversos filmes que prestam homenagens igualmente, senão maiores, ao amor pela sétima arte: 'Les 400 Coups' e outras obras de Truffaut, por exemplo.
Saudades de Noiret...
Beijinhos

Cassiopeia disse...

Correcção: igualmente dedicadas, senão mais.

Ghost Particle disse...

Hi,

You have a very nice blog.

Comostas. Sorry i dont kno much language.

André Lamelas disse...

Só cheguei cá hoje pela primeira vez e já é dos meus blogs favoritos. Parabéns! :)

Anónimo disse...

Vi e revi o Cinema Paradiso em diferentes momentos da minha vida e descobri redescobri sempre novas mensagens. Hoje ao sentar-me a escrever sobre um dos meus filmes preferido pensei que talvez o aspecto mais fascinante é talvez o facto de ser um filme com a potencialidade de nos acompanhar ao longo da nossa vida. Dos três momentos em que vi o filme deixei-me cativar sempre pelo mesmo personagem mas em idades diferentes:

- Dos meus 12 anos retive um Toto que se atira para o chão na subida íngreme agarrado ao tornozelo para poder ir à pendura de bicicleta.
- Dos meus 21 anos apaixonei-me por um Salvatore em pé todas as noites na esquina a fixar a janela de Elena como a história dos soldados e das 100 noites.
- Actualmente, vejo-o de cabelos grisalhos deitado ao lado de uma mulher que tem sempre uma voz diferente.

Ao comentar estas impressões com uma amiga italiana ela perguntou-me qual das versões do Il nuovo Cinema Paradiso eu tinha visto. Aparentemente, a versão mais longa revela que teria sido Alfredo (em nome do talento e vocação pelo cinema de Salvatore) que teria afastado Salvatore de Elena. Esta revelação (que ainda não pude confirmar) continua a desconcertar-me ... Este novo desfecho assusta por parecer demonstrar uma cisão entre dois tipos diferentes de amor, o amor ao cinema e o amor por Elena ... como se uma opção excluísse necessariamente a outra.

Igualmente, assusta o crescente isolamento sentido quer na vida do protagonista quer na vida da pequena aldeia. Entristece-me sempre, a sala pequenina com a televisão e o vídeo em casa da mãe de Salvatore se a comparo com o grande cinema Paradiso, espaço de convívio e choque social.
Lutemos contra o isolamento, voltemos para as grandes salas de cinema!

P.S. Por último, Tradutor ... Traidor ( Tradutore, Traditore ). O pudor da tradução portuguesa faz lembrar a censura feita pelo pároco! Assim como Salvatore acaba a ver a sequência de beijos cortados, gostaria de ver também uma tradução genuína que não limitasse o lado mais cómico dos diálogos na sala de cinema de uma sociedade do pós guerra no sul de itália.

Rita Araújo

Hugo Alves disse...

Para Rita Araújo:

o seu comment tem toda a pertinência. As traduções portuguesas (não apenas a de Cinema Paraíso) não primam pela perfeição.

Quando à versão director's cut, é mesmo verdade que Alfredo é o culpado por Toto não ficar com Elena. Confesso que, quando comprei o DVD e vi essa nova versão fiquei algo desconcertado.

De qualquer modo, há um momento que é de uma beleza etérea e trágica....refiro-me ao momento em que Elena diz a Toto que tudo foi um sonho e que assim deve ficar...

Ah, e sim, o Cinema Paraíso tem a virtualidade de nos acompanhar em vários momentos da vida ;)

PS - sugestão: cara Mafalda, uma vez que têm sido levantadas tantas propostas de discussão (o que é sempre salutar) eis uma "proposta de proposta de discussão": grandes actores. Quem é o melhor? eu, da minha parte, avanço com um "duelo" Brando Vs Quinn.. (coisa que não é inédita. Lembre-se Viva Zapata! de Elia Kazan)Que lhe parece?

Tiago Tejo disse...

Concordo plenamente.

Se há filme humano, esse filme é o Cinema Paraíso.
Ficou marcado no meu coração de gelo da primeira vês que o vi e sempre que o revejo é um novo nó na garganta o filme inteiro.

Abraços.

Anónimo disse...

Digamos apenas que é o meu filme preferido...nada posso acrescentar, simplesmente lembrar que a banda sonora concretiza-se num casamento perfeito com o filme. Ennio Morricone (e o filho, o que muito poucos sabem), compuseram temas lindíssimos que ainda hoje poem os meus pelinhos em pé!...

Saudações