11 fevereiro 2009

Slumdog Millionaire – o burburinho do momento

Freida Pinto
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Em relação ao novo filme de Danny Boyle, ainda não consegui decidir qual das frentes desta guerra me deixa mais estupefacta.
Se aqueles que o glorificam, ao ponto de “ameaçarem” a Academia de Hollywood e de o considerarem uma “chapada na cara”; ou se aqueles que o desprezam de tal forma que o encaram como “um filme descartável e indigente” e lhe dão a pontuação mínima num jornal de referência. Palavra que não me consigo decidir.
Por um lado, e peço desculpa aos admiradores mais fervorosos, não há ali nada que me pareça digno de veneração. Temos uma Índia filmada por um inglês com tiques de imperialista, uma panóplia de actores adultos a precisar de aulas de interpretação, uma montagem atabalhoada e um casal romântico que não solta uma única faísca.
Por outro lado, e que me perdoem os contestatários, também não me pareceu que estivéssemos na presença de um objecto tão hediondo que mereça tamanha aversão. Aliás, para além da beleza indiscutível de Freida Pinto e da presença do nosso querido Irrfan Khan, saboreei a oportunidade de ser testemunha de um autêntico fenómeno sociológico que, na linha do actual Yes, we can, enche os espectadores de fé e de confiança em si mesmos.
Em suma, Slumdog Millionaire consegue partir de uma interessante premissa argumentativa, a utilização das respostas de um concurso de televisão como veículo para contar a vida do protagonista, e acabar por ser um filme com deslizes de gosto e de desempenho. Como tal, está longe de ser a obra-prima de alguns, mas também está a milhas de ser o falhanço que muitos criticam.

09 fevereiro 2009

06 fevereiro 2009

Um homem na cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acende o cio,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
todo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem...

Fado cantado por
Carlos do Carmo
Letra de
Ary dos Santos
Música de José Luís Tinoco

(E é com eles que terei um excelente fim-de-semana.)

05 fevereiro 2009

Guilty or not guilty?

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John Patrick Shanley, nova-iorquino nascido em 1950, tem trabalhado enquanto dramaturgo, argumentista e até realizador. Autor da peça Dúvida, galardoada com um Pulitzer, texto perverso e traiçoeiro que tive a oportunidade de ler através de um pequeno volume, publicado na colecção de livros de teatro do Maria Matos, John Patrick Shanley foi representado nesse mesmo palco por Diogo Infante e Eunice Muñoz. Agora, passados menos de dois anos, Dúvida chega ao cinema, realizado pelo proprio Shanley e interpretado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman.
Texto, peça e filme poderiam ter saído da cabeça de um Mestre como Alfred Hitchcock. É prestar atenção às palavras do Padre Flynn (I can't say everything. Do you understand? There are things I can't say. Even if you can't imagine the explanation, Sister, remember that there are circumstances beyond your knowledge. Even if you feel certainty, it is an emotion and not a fact.) e a nossa memória começa a recordar um certo drama interior, protagonizado por Montgomery Clift e Anne Baxter, algures na década de cinquenta, e de nome I Confess. Nessa altura, os críticos dos Cahiers referiam a predominância da "transferência da culpa" nos filmes de Hitchcock. Em I Confess, um padre é culpado de um crime que não cometeu e, devido ao respeito pelo segredo da confissão, nada pode fazer para se defender.
Em Dúvida, não chegamos a ter a certeza de que o Padre Flynn seja vítima de um processo de "transferência da culpa". Na verdade, não chegamos a ter a certeza de nada. E isso, por si só, merece definitivamente uma ida ao cinema.
Nós, aqui no Mise en Abyme, ficaremos a torcer para que John Patrick Shanley levante a estatueta dedicada ao melhor argumento adaptado. (E, já agora, esperemos que Sean Penn leve a melhor na luta pelo Óscar de melhor actor... Mas isso é conversa para outro post.)

04 fevereiro 2009

27 janeiro 2009

Quando o preconceito se transforma em desejo *


São três mulheres. Uma loura, com formas generosas, eternamente insatisfeita e com a certeza daquilo que não quer. Uma morena, amiga da loura, muito alta, com dentinhos encantadores* e capaz de se comover com a beleza da arte. Outra morena, mais baixa, olhos escuros, invulgar pintora e senhora das suas intenções.

A dada altura, a primeira morena verá as suas certezas abaladas. Aquilo que desprezava torna-se aquilo que mais quer. Não fosse o desfecho convencional e a sua vida deixaria de fazer sentido. A segunda morena, por seu lado, está como o poeta ortónimo Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.
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* Igualmente encantadores em Frost/Nixon.

21 janeiro 2009

Pretty as a picture

Para o meu Acossado preferido

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(e para todos aqueles que insistem em desvalorizar a “minha” Scarlett Johansson e em sobrevalorizar a Natalie Portman)
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It would be unfair to say that success came easily to Scarlett, but it did come early; she was practically born with indie creed. Since she was a little girl, Scarlett’s been a critic’s darling, making movies with – and for – adults, and bringing to her roles an emotional maturity beyond her years. She relates to other young actors, such as Natalie Portman, who grew up on movie sets: “I’m a very professional person: I never miss a day. I don’t storm off the set. I think Natalie is that way as well”, says Scarlett, who grew close to Portman while shooting The Other Boleyn Girl, in which they starred as sisters. “We both take our careers extremely seriously, and we both love film.“

Glamour, Fevereiro de 2009
Página 55

19 janeiro 2009

Vanity Fair - Fevereiro 2009

(...)
Vanity Fair - Which living person do you most admire?
Dustin Hoffman - The Portuguese director Manoel de Oliveira, who is 100 years old and still working.
(...)

17 janeiro 2009

Editora por um dia

Para que saibam,
hoje é o Mise en Abyme a dar ordens nas terras de Deus.

10 rostos
10 fotografias
10 obras-primas da natureza humana

(Muito obrigada pelo convite e pela honra!)

15 janeiro 2009

Conversa com uma criança de quatro anos

(...)

Marta - Não gosto nada de pessoas que cheiram mal.

Eu - E achas que eu cheiro mal?

Marta - Não! Tu cheiras a tu.

Eu - Como assim?

Marta - Então, eu adoro o teu cheiro e não há mais nenhuma pessoa a cheirar assim.

(...)

12 janeiro 2009

Silêncio interrompido

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Não resisti a esta nova moda que circula pela blogosfera.
(E aguardo pelas vossas confidências!)
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O Mise en Abyme já se mascarou de Angelina Jolie, de Claudia Cardinale e de Wally.
O Mise en Abyme nunca atende o telefone.
O Mise en Abyme já fumou haxixe.
O Mise en Abyme nunca saiu da Europa.
O Mise en Abyme já foi entrevistado pelo Rádio Clube Português.
O Mise en Abyme nunca teve um carro.
O Mise en Abyme já apanhou bebedeiras de caixão à cova.
O Mise en Abyme nunca viu um musical do La Féria.
O Mise en Abyme já saiu da sala de cinema a meio de um filme.
O Mise en Abyme nunca esteve em coma.
O Mise en Abyme já apareceu no jornal.
O Mise en Abyme nunca se apaixonou por Paris.
O Mise en Abyme já foi a muitos festivais de cinema.
O Mise en Abyme nunca fez uma directa.
O Mise en Abyme já andou de balão.
O Mise en Abyme nunca fez a roda.
O Mise en Abyme já pediu desejos a estrelas cadentes.
O Mise en Abyme nunca gostou de heavy metal.
O Mise en Abyme já voou numa asa delta com motor.
O Mise en Abyme nunca se farta de comer pão.
O Mise en Abyme já chorou baba e ranho no cinema.
O Mise en Abyme nunca andou à pancada.
O Mise en Abyme já fez rapel.
O Mise en Abyme nunca será benfiquista.
O Mise en Abyme já adormeceu no cinema.
O Mise en Abyme nunca teve jeito para desenhar.
O Mise en Abyme já fez karaoke e foi vaiado pelo público.
O Mise en Abyme nunca foi homofóbico.
O Mise en Abyme já passou a noite numa estação de comboios.
O Mise en Abyme nunca será vegan.
O Mise en Abyme já previu muitas tragédias.
O Mise en Abyme nunca se esquece de apelidos.
O Mise en Abyme já cantou Delfins a plenos pulmões.
O Mise en Abyme nunca fez snowboard.
O Mise en Abyme já apareceu na televisão.
O Mise en Abyme nunca mais terá 15 anos.
O Mise en Abyme já fez InterRail.
(...)

10 janeiro 2009

Calado

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O Mise en Abyme tem andado calado e com uma infinita vontade de ver e de contemplar. Daí as fotografias da Claudia Cardinale e de outras mulheres perfeitas.
Calámo-nos em relação a muitas coisas importantes, como o centenário do Manoel de Oliveira, os livros que se leram e os filmes que se viram. Calámo-nos e assim continuaremos até a maré mudar.
Precisamos de desafios, de projectos e de ideias que nos caiam do céu. Até lá, quer-me cá parecer que continuaremos silenciosos.

08 janeiro 2009

01 janeiro 2009

É possível viver da esperança


-Viva 2009!

Viva o Mise en Abyme que celebra quatro anos de existência!

29 dezembro 2008

Espectador leva tiro por falar numa sala de cinema

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Foi no dia de Natal mas a história não é das mais alegres: um espectador pouco paciente alvejou outro que, alegadamente, não parava de falar numa sala de cinema do Riverview Movie Theatre, em Filadélfia, durante a exibição de «The Curious Case of Benjamin Button», de David Fincher.
James Joseph Cialella Jr., de 29 anos, foi o agressor, que se enfureceu com o barulho contínuo de uma família durante a projecção do filme. Após ter feito alguns avisos e atirado pipocas do seu lugar, Cialella Jr. levantou-se para confrontar a família e quando o pai da mesma se levantou para protegê-la, o agressor deu-lhe um tiro no braço esquerdo. O resto da audiência fugiu da sala de cinema, enquanto Cialella Jr. se sentou para ver tranquilamente o resto do filme. Pouco tempo depois, chegou a polícia, que prendeu o agressor e lhe confiscou a arma de fogo. Frank Venore, porta-voz do corpo policial, sublinhou que «é verdadeiramente assustador vermos um conflito deste tipo evoluir para este nível de violência». O agressor é agora acusado de tentativa de homicídio, agressão agravada e posse ilegal de arma de fogo.
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Luís Salvado - 2008-12-29

27 dezembro 2008

Jorge Pé-Curto / uma descoberta

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
(...)
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Poema De Natal
Vinicius de Moraes
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"Jorge Pé-Curto nasceu em 1955, em Moura. Vive em Almada desde 1965. Começou a frequentar, desde os dez anos de idade, o Centro Artístico Infantil, no Castelo de S. Jorge, de que era mentor o pintor Hermano Baptista. Mais tarde cursou escultura na Escola António Arroio como bolseiro da Fundação Gulbenkian. Em 1981, juntamente com outros artistas, fundou em Almada, a IMARGEM, projecto que, entretanto, viria a abandonar. Foi professor do ensino oficial durante 17 anos. Como artista plástico Jorge Pé-Curto desenvolveu actividade na cerâmica, pintura, cartaz e gravura, mas seria na escultura, nomeadamente na pedra, que viria a centrar o seu trabalho. Colectivamente, Jorge Pé-Curto participou desde 1972 em diversas exposições em galerias, instituições várias, espaços comerciais e mostras escultóricas ao ar livre. Desde 1984 expõe individualmente. Da sua autoria são diversos monumentos, situados em várias regiões do país."

23 dezembro 2008

Natal em Lisboa

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Fanny och Alexander (1982)
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All That Heaven Allows (1955)