28 setembro 2008

Imagens

Mia Farrow e John Cassavetes
E eis que está prestes a terminar o fim-de-semana mais alucinante dos últimos tempos. Posso espreguiçar-me sem pressas e dedicar-me ao Mise en Abyme.
Sexta ao final da tarde, a Teresa Wright e eu embarcámos num confortável avião da British Airways, rumo ao Príncipe Real e em direcção à festa de anos da Time Out. Bom álcool, óptimo sushi, muitíssimos palitos la Reine, grande música e a oportunidade de o Mise en Abyme estar rodeado de batráquios como o Luís Delgado e de gente luminosa como o Fernando Lopes e o Carlos do Carmo.
Amigos, saudades, abraços, presentes, beijinhos e, infelizmente, a hora de ir dormir. Sábado de manhã, bem cedo, toca o despertador e recomeça a aventura. Pequeno-almoço combinado para matar saudades de outros amigos insubstituíveis, cabeleireiro lento e, horas depois, tempo de estar numa igreja a testemunhar o casamento de um grande e incessante amigo.
Um arrepio colado à espinha e bastante vontade de chorar. É altura de abandonar as nostalgias e de viver o presente. Comida fabulosa, os quilos perdidos a reaparecerem por baixo da seda do vestido, conversas animadas e um DJ surpreendente. José Cid, Carlos Paião, Rosana (y el sabor del poco a poco) e Rita Lee.
Os pés doíam, mas nada disso interessava. Era impossível pedir-se mais do que aquilo que se estava a viver. Dançar sem parar, conviver com as pessoas de quem gostamos tanto e não pensar no avião que parte às oito da manhã. E partiu. E nós estávamos lá, enroladinhas numa manta azul, e desejosas de chegar à cama londrina. E agora estamos aqui, tão perto do Madame Tussauds e cheias de esperança no futuro.

Paul Newman / 1925 - 2008


Rosto nu
na luz directa.
Rosto suspenso,
despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na angústia do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
Rosto derivando
lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem
Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.
Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.

Sophia de Mello Breyner Andresen

26 setembro 2008

Viagem curta e de programa acelerado




A Teresa Wright e eu vamos dar um saltinho a Lisboa.
Boa viagem para nós!

21 setembro 2008

Being Peter Sellers





If you ask me to play myself, I will not know what to do.
I do not know who or what I am.

Peter Sellers

19 setembro 2008

Efeito borboleta

Quer-me cá parecer que a queda de popularidade do Mise en Abyme está directamente relacionada com a falência do banco Lehman Brothers.

18 setembro 2008

Early in the morning

I've got you under my skin
I've got you deep in the heart of me
So deep in my heart,
that you're really a part of me
I've got you under my skin.
I tried so not to give in
I said to myself this affair
Never will go so well
But why should I try to resist,
When baby I know damn well
That I've got you under my skin.
I'd sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice that comes in the night
And repeats, repeats in my ear
Don't you know you fool,
you never can win
Use your mentality,
wake up to reality
But each time I do just the thought of you
Makes me stop before I begin,
Because I've got you under my skin
And I like you under my skin.

16 setembro 2008

* the lady in green and the photographer *



A minha melhor amiga gosta de verde, tem um fraquinho por fotógrafos e merece os parabéns por ser uma grande mulher.

15 setembro 2008

Don LaFontaine / 1940 - 2008

Tarde e a más horas, vimos prestar homenagem a uma das vozes mais importantes do cinema americano. Don LaFontaine, o narrador de trailers por excelência, morreu no passado dia 1 de Setembro.

14 setembro 2008

Feira da Ladra

O Mise en Abyme é tão coerente que, quando vendeu velharias na Feira da Ladra, não se esqueceu de levar artigos representativos da sua cinefilia. Assim, no meio de panelas e coroas de Natal, lá estavam dois cartazes do Leonardo DiCaprio, da altura em que ele era o “Leo” e não o menino prodígio do Mestre Scorsese.

11 setembro 2008

Festa de anos prolongada



Serpico (1973)
Sidney Lumet & Al Pacino



House of Games (1987)
A minha iniciação no universo de David Mamet enquanto realizador.



Mean Streets (1973)
Martin Scorsese, Robert De Niro e Harvey Keitel. Tão novos e já com tanto talento.




Any Given Sunday (1999)
Oliver Stone & Al Pacino
Wag the Dog (1997)
Barry Levinson, Dustin Hoffman e Robert De Niro ensinam-nos a duvidar de tudo.

Donnie Brasco (1997)
Al Pacino & Johnny Depp

E bom, depois de ter passado os últimos dias numa autêntica festança de cinema, não é de estranhar que esteja em pulgas por ver um certo filme.
Não quero saber se o realizador é um ilustre desconhecido e também não estou interessada nos contratos milionários de Robert De Niro e Al Pacino. A única coisa que me interessa é que vou vê-los, lado a lado.

22 agosto 2008

À deriva na internet - leituras e comentários

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I – João Tordo / Pequim 2008

Passeando pela blogosfera, descobri um texto que representa, ipsis verbis, a minha opinião sobre a prestação dos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos. Resolvi citá-lo e ainda tomei a liberdade de destacar as minhas frases preferidas.
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Hipocrisia Olímpica
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Se tivesse sido feita uma sondagem a uma semana do início dos Jogos Olímpicos entre os portugueses, para averiguar do nosso grau de sabedoria no que diz respeito aos atletas envolvidos, os resultados teriam sido bonitos. Aposto o dedo mindinho que 95 por cento dos portugueses metiam os pés pelas mãos: "O Tri-alto? É com três varas, não é? Força Vanessa!"; "Nelson Évora, Nelson Évora....esse é o da maratona?"; já para não falar, obviamente, dos mais pequeninos: pergunte-se ao primeiro cidadão a voltar a esquina em que desporto competem Bruno Pais ou Vânia Silva, e é certo que vem aí asneira da grossa.
De repente, porém, o país transformou-se num aglomerado indistinto de especialistas em modalidades olímpicas. No outro dia, no café, ouvia um gajo refilar, indignado até ao fundo da alminha, por causa da prestação da rapariga que lançou o martelo. "60 metros...Foda-se, 68 metros fez ela cá no Estádio Nacional!". É que não há direito: essa sessão no Estádio Nacional, novidade absoluta para os portugueses e presenciada in loco por duas pessoas e um casal de pombos, parece subitamente registada na consciência do povo como uma imagem indelével do grande momento na vida pública de Vânia Silva...a "nossa" Vânia...e foram eles gastar o "nosso" dinheirinho para irem passar férias a Pequim, e depois vêm dizer que, de manhã, só mesmo na caminha...
É certo que alguns atletas tiveram comentários menos felizes; é certo que alguns ficaram aquém das prestações esperadas; mas, por amor de deus, se querem indignar-se, bem à portuguesa, indignem-se com a selecção nacional de futebol, que ganham rios de dinheiro com o Ricardo na baliza - não com rapazes e raparigas que têm "bolsas" da Federação no valor de 1000, 750 e 500 euros - diferentes escalões de mérito! - e treinam há anos debaixo de chuva e calor sem apoios, prestígio ou reconhecimento. E depois se vêem à rasca quando têm de competir com os melhores atletas do mundo, mais fortes, melhor treinados, melhor equipados, muito mais ricos. As medalhas não caem do céu. A estupidez parece que sim.
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II – José Diogo Quintela / Nomes feios

Ao ler o site do Público, dei de caras com um texto de José Diogo Quintela que muito me ofendeu.

Recapitulando, o Registo Civil veta um nome “estrangeiro”, mas não tem qualquer problema com um nome “foleiro”. Daí deixar passar também os não menos lusos (mas igualmente pirosos) Cereja, Mar ou Lua. (…) Há um sem número de trocadilhos que as crianças (e adultos parvos como eu) gostam de fazer. Como vão descobrir quando estudarem história e o professor perguntar “quantos homens já foram à Lua?” ou no recreio se cantar “a Mar enrola-se na areia”.
(…)
Ao meu miúdo tenciono chamar Azevedo. Um Azevedo, mesmo com cinco anos, não chora. Nem nenhum miúdo, mesmo dos da quarta-classe, se atreve a roubar-lhe a bola.

Pois fique o Gato Fedorento a saber que a minha filha receberá o nome de Maria do Mar Azevedo. E com muito orgulho.
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III – Jorge Mourinha / O toque humano
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Mais um texto pertinente que gostaria de ter escrito.
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Que o mesmo é dizer: os primeiros vinte minutos de "Wall-E" não têm diálogo de espécie nenhuma. E só um terço do filme, se tanto, tem diálogo falado. Nestes tempos em que o cinema quer tanto encher o olho que se carrega na espectacularidade em detrimento de tudo o resto, em que a narrativa é um simples pretexto para acumular as sequências de acção, os magos da Pixar respondem de modo absurdamente simples: fazendo da própria imagem a narrativa, integrando tudo aquilo que é necessário ao espectador para seguir a história no modo como as personagens se movimentam e interagem com o seu universo, sem recorrer a "muletas" narrativas ou diálogos.
É, em suma, cinema em estado puro: uma experiência acima de tudo visual que invoca ao mesmo tempo os pioneiros da comédia cinematográfica (Chaplin e Keaton à cabeça) e a ficção-científica distópica ("2001: Odisseia no Espaço", "À Beira do Fim", "O Último Homem na Terra" à cabeça), e que o faz dentro do quadro criativo da mais velha história do cinema - "rapaz encontra rapariga".
(...)
A palavra pode estar gasta, mas há casos em que não é possível usar outra: "Wall-E" é uma obra-prima.

18 agosto 2008

Lisboa

Pois é. O Mise en Abyme e eu estamos em Lisboa. Também estivemos no Algarve e no Alentejo a matar saudades das melhores coisas do Mundo. Comemos muitas sardinhas e esquecemos o abominável salmão fumado, único peixe à venda nos supermercados londrinos.
Infelizmente, e depois de uma vida dedicada aos tubarões, chegámos tarde e não testemunhámos a passagem do tubarão-frade pela costa alentejana. Apenas uma pergunta para todos aqueles que têm aturado esta minha obsessão: quem é que tinha razão, hum?

Para além de mergulhos no mar, este blog delirou com os prodigiosos argumentos de O Cavaleiro das Trevas e de North by Northwest. Dois filmes tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão próximos na interpelação que sugerem: até que ponto precisaremos da verdade? O mordomo que opta por esconder a verdade de Bruce Wayne ou um Cary Grant que só descansa depois de a verdade ter sido revelada? Creio que prefiro o primeiro, mais Ibseniano.

Até breve, numa das sete colinas.

28 julho 2008

Girls just want to have fun

Para a Mary, a minha dançarina preferida.

21 julho 2008

Procura-se uma identidade

I just don't know what I'm supposed to be.
Charlotte, Lost in Translation (2003)
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Jane Campion controla-nos de maneira tão habilidosa que começamos a ver Holy Smoke como quem está a assistir a uma comédia de costumes, baseada em mais uma família problemática.
O engano persiste, sequência após sequência, de tal forma que, quando conhecemos a personagem de Harvey Keitel, convencemo-nos de que estamos a ser espectadores de uma espécie de duplicação do “Homem – SOS” de Pulp Fiction.

Kate Winslet é Ruth Barron, uma jovem mulher procurando por si mesma, pela sua essência, por aquilo que deve ser, que tem de ser, que quer ser. E, por entre dúvidas, a certeza de que é lasciva, de que quer amar e desejar; de que quer ser amada e desejada.
No episódio dos documentários, naquela mesma sequência em que a família está toda presente e há uma ovelha a servir de mesa para umas tigelas com pipocas, Ruth, depois de perceber que o pretenso guru se envolveu com a cunhada, levanta-se e refugia-se na casa de banho. Não porque a mensagem dos vídeos a tenha atingido, mas sim porque, mais uma vez, foi rejeitada. Todo o amor que, supostamente, existe dentro dela, provocado pelo culto hindu, não serve de nada quando ela se sente vazia e sem interesse. O guru preferiu a pirosa que se pavoneia de madeixas nos caracóis e calções minúsculos. O guru, tal como Ruth sabia, escolheu a “little Barbie doll”. O orgulho de Ruth está ferido. Ela é, afinal, a mulher rejeitada que põe tudo em causa, porque, na verdade, de nada serve. E será mesmo assim? Não, não é.
Ruth estava enganada e não previu que se iria transformar no único guru do filme. Um guru sexual, chamemos-lhe assim, que subjuga o homem até ao limite. Até ao ponto de este mesmo homem, habitualmente de calças de ganga e botas de cowboy, surgir no deserto de vestido encarnado, suplicando Be my bride, I love you.
Holy Smoke vive de sobressaltos, de mal entendidos, de seres primários e de seres sombrios. No meio do nada, algures na Austrália, uma mulher e um homem jogam com as consciências um do outro, indo até ao limite da perversidade, da angústia e do prazer. Agarrados a desejos que não compreendem, anseiam por atingir alguma certeza sobre si próprios.
(E não estaremos muito longe da verdade se compararmos estas almas ingénuas e sedentas de afecto a outras duas almas: Charlotte e Bob Harris.)

20 julho 2008

Summer Evening Walk

A tarde e a noite de Sábado foram passadas em Richmond Park, num passeio dedicado a mochos, árvores com mais de quatrocentos anos, morcegos e veados. Os guias ingleses, dois entusiastas da natureza, não pouparam esforços para que todos estivessem satisfeitos.
Absolutamente bestial e, pasmem, gratuito.