16 junho 2008

14 junho 2008

Sentido de vida

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BALADA DA RITA

Disseram-me um dia, Rita (põe-te em guarda)
aviso-te, a vida é dura (põe-te em guarda)
cerra os dois punhos e andou (põe-te em guarda)
e eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou

Galguei caminhos-de-ferro (põe-te em guarda)
palmilhei ruas à fome (põe-te em guarda)
dormi em bancos à chuva (põe-te em guarda)
e a solidão, não erro
se ao chamá-la, o seu nome
me vai que nem uma luva
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Andei com homens de faca (põe-te em guarda)
vivi com homens safados (põe-te em guarda)
morei com homens de briga (põe-te em guarda)
uns acabaram de maca
e outros ainda mais deitados
o coveiro que o diga
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O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada
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E um dia de tanto andar (põe-te em guarda)
eu vi-me exausta e exangue (põe-te em guarda)
entre um berço e um caixão (põe-te em guarda)
mas quem tratou de me amar
soube estancar o meu sangue
e soube erguer-me do chão
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Veio a fama e veio a glória (põe-te em guarda)
passearam-me de ombro em ombro (põe-te em guarda)
encheram-me de flores o quarto (põe-te em guarda)
mas é sempre a mesma história
depois do primeiro assombro
logo o corpo fica farto
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O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada
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Sérgio Godinho

Quem é? Quem é?



Quem é a celebridade, quem é ela,
que está em Londres e encontrou o Mise en Abyme?

05 junho 2008

The Shoop Shoop Song



Cher, Winona Ryder e Christina Ricci

- um teledisco perdido no tempo -

04 junho 2008

02 junho 2008

Da condição de ser mulher


Poder-se-ia afirmar, sem receio de um possível equívoco, que a Mulher tem sido mal habituada por gente como Quentin Tarantino. Insistindo, e bem, num processo de recontextualização de actores, Tarantino começou por servir-se da sua musa, Uma Thurman, para elevar a Mulher à condição de heroína, quase de Super-Heroína.
As vencedoras de Tarantino são capazes de tudo. Aniquilam a morte como em Pulp Fiction e Kill Bill, conseguem aquilo que nem o próprio Scarface conquistou ao derrotarem bandos armados e, como se nada fosse, pontapeiam a máquina mortífera presente em Death Proof.
Ora, serve esta introdução para demonstrar a eventual estranheza que as espectadoras, habituadas à vassalagem de Tarantino, sentiram ao verem Caramel. O filme libanês, ao contrário das películas referidas, reflecte justamente sobre as fragilidades que advêm do facto de se ser Mulher.
Construído em alicerces de amizade sólida, Caramel vigia as funcionárias de um cabeleireiro bolorento e as donas de uma casa de costura. Sem princípio nem fim, a câmara testemunha semanas daquelas vidas e depois, sem qualquer satisfação, abandona-as e deixa-as entregues aos seus destinos.
A personagem mais interessante, do ponto de vista da fraqueza feminina, mais especial do que a humilhada ou a temerosa, é a actriz de anúncios, mãe de dois filhos, obcecada pela juventude e pela menopausa que não aceita.
Contrariando a imagem da tal Super Mulher de que falávamos, esta esconde-se em operações, adesivos e penteados, fazendo-nos reflectir sobre algo que andava esquecido: os homens, de uma forma geral, mesmo que tenham sido míticos na juventude, conseguem envelhecer saudável e naturalmente. Repare-se, por exemplo, na naturalidade com que Sean Connery, Harrison Ford e até George Clooney surgem em público, orgulhosos das suas cãs; ou na nitidez com que as rugas destes aparecem na televisão e nas capas de revistas.
A personagem de Caramel talvez não venha a compreender a dimensão da sua fraqueza. Provavelmente, desconhece o caso de Liv Ullmann que não recorreu a operações por ter curiosidade de se ver em velha. Mas enfim. Mesmo que aquela personagem não venha a aceitar a sua condição, as espectadoras portuguesas já ganharam, e muito, com a possibilidade de se reverem em Caramel. Sem super poderes, apenas humanas e irresistíveis.

01 junho 2008

29 maio 2008

59 Lamb's Conduit Street

Numa rua pequena e difícil de encontrar, deparamo-nos com uma das livrarias mais acolhedoras e singulares desta cidade. Certa amiga não parava de me falar na Persephone Books, mas confesso que não estava à espera de um espaço tão original.
Edifício do princípio do século XVIII, flores na entrada, bengaleiro à porta, soalho de madeira, cadeiras convidativas, estantes claras e três mulheres, de grupos etários diferentes, a trabalharem em três sólidas secretárias.

Sorridentes, olharam para mim, perguntaram se precisava de ajuda e, perante a minha resposta negativa, continuaram a trabalhar. É preciso abrir um parêntesis para explicar que esta livraria também funciona como escritório da editora.
E assim fiquei eu, entregue aos livros, boquiaberta com tanta serenidade e bom gosto. Escolher um só livro não foi tarefa fácil, mas acabei por eleger aquele que mais me perturbou.

E a leitura espera por mim.
Até breve.

28 maio 2008

Saints and Soldiers (2003)

Gould – Is it good reading? (referindo-se à Bíblia)
Deacon – Do you believe in a life after this one?
Gould – Not a chance in hell. When we first got here, I was working on this kid. He was shot up pretty bad. He kept saying, “Please, God. Please, God.” Over and over. Like it meant something. He was so sincere about it, I thought it might work. Then two minutes later he was dead. There wasn’t a thing I could do about it. When I looked into his eyes… There was nothing there. Nothing. That’s when I realised that… This is it.
Deacon – It’s funny.
Gould – What can possibly be funny about that?
Deacon – No, I don’t mean “funny” funny. It’s … It’s just that… We were just outside Sainte-Mère-Eglise. We were getting pounded pretty hard. And I was holding this kid on my lap and he was shot up pretty good. And I remember him praying. And I was praying, too. And all of a sudden he was gone. And that was… That was it, really. That was the first time that I really watched somebody die. But right then I knew that he was in a better place than that.
Gould – How convenient for you.
Deacon – Convenient? That’s what I was thinking about what you said. Funny, huh?

26 maio 2008

Guardanapos – último episódio

Dois Sainsbury's passados a pente fino e nada. O LIDL, esse milagre que fez as minhas delícias no InterRail, localiza-se a milhas da minha área de residência. Sem mais nenhuma solução em vista, restava-me sucumbir aos guardanapos "chiques a valer" do Waitrose.

Mas não! Eis que uma leitora caridosa, de seu nome Laidita, resolveu abrir os olhos do Mise en Abyme para uma nova realidade: Sainsbury's online grocery store.

Visa numa mão, rato na outra e… Ei-los, à porta de casa, misturados entre detergentes e bolachas.

E a vida em Londres nunca mais será a mesma.

The end

Surpresas que chegam pelo correio

Muito obrigada!

23 maio 2008

Triste conclusão

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Um sujeito entra na estação do metro, vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, na hora de ponta matinal.
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Durante os 45 minutos em que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas, num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.
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A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, telemóvel no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre context, perception and priorities.
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A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. (Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefacto de luxo, sem etiqueta de marca.)
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E um obrigada especial ao ToMane por me ter reencaminhado este e-mail!

18 maio 2008

Cidade nova, escritora nova

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Another day is another world. The difference between foreign countries is never so great as the difference between night and day. Not only are the landscape and the light changed, but people are different, relationships which the night before had progressed at a sudden pace, appear to be back where they were. Some hopes are renewed, but others dwindle: the state of the world looks rosier and death further off; but the state of ourselves and our loves and ambitions seems more prosaic. We begin to regret promises, as if the influence of darkness were like the influence of drink. We do not love our friends so warmly: or ourselves. Children feel less need of their parents: writers tear up the masterpiece they wrote the night before.
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A Game of Hide and Seek, p. 28
Elizabeth Taylor

Stuck in the middle with you

Reservoir Dogs – e a perfeição existe

17 maio 2008

Homenagem à beleza etérea – IX



Monica Vitti. Depois de Liv Ullmann, Claudia Cardinale, Jacqueline Bisset, Bibi Andersson, Saffron Burrows, Inés Sastre, Eva Green e Faye Dunaway. Perfeita como uma peça de mármore. Esculpida, feição a feição, como uma obra-prima.

15 maio 2008

Guardanapos – a saga continua


Depois de o prezado Vodka e Valium 10 ter referido que havia guardanapos à venda nos supermercados Sainsbury's, lá fui eu, crente e ansiosa, à caça dos ditos. Assim que entrei, deparei-me com os mesmos Kleenex's de sempre. Uma coisa é assoar o nariz, outra, bem diferente, é limpar a boca à medida que jantamos. Parece que os londrinos não percebem isto.
A boa notícia é que encontrei guardanapos num Waitrose. Quer dizer, não eram propriamente guardanapos vulgares. Assemelhavam-se mais a guardanapos festivos, com flores e riscas estampadas, e custavam os olhos da cara. Assim, a minha busca continuará.

Resultados até agora:

Tesco – 0
Marks & Spencer – 0
Sainsbury’s – 0
Waitrose – 1

13 maio 2008

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



Cine Texas (Galinheiras)

Eden (Restauradores)
São Jorge (Avenida da Liberdade)
Garrett (Póvoa de Varzim)
Condes (Avenida da Liberdade)
Império (Alameda D. Afonso Henriques)
Roma (Avenida de Roma)
Monumental (Saldanha)
Alvalade (Avenida de Roma)
Nimas (Avenida 5 de Outubro)
Apolo 70 (Campo Pequeno)
Quarteto (Rua Flores de Lima)
Star (Avenida Guerra Junqueiro)
Castil (Rua Castilho)
SLB (Benfica)
A primeira vez que recebi um e-mail com estas fotografias foi em Setembro do ano passado, através do Hugo. Nessa altura, guardei-o, muito bem guardadinho, nos arquivos do meu computador. Agora, passados oito meses, volto a receber o mesmo e-mail, através de um outro cinéfilo. A diferença é que já não resisto a partilhar estas imagens com os leitores do Mise en Abyme.
Só lamento que não haja nenhum registo fotográfico dos cinemas Alfa, no Areeiro. Foram um marco na minha infância. Ainda me lembro de passar por lá e de ver os funcionários a trocarem as letras das estreias.