Aqui há uns tempos, propus que discutíssemos o talento de Viggo Mortensen. Tinha acabado de sair do
A History of Violence e sentia-me ludibriada. Mais especificamente, sentia-me insatisfeita com o filme e com os actores. E, verdade seja escrita, esta sensação manteve-se até há duas semanas, altura em que assisti a
Eastern Promises.
Horas depois de ter visto o filme, já longe do cinema e dos outros espectadores, julgo ter compreendido este renovado Cronenberg, menos obcecado por insectos e mais atento à condição humana no que esta tem de corpóreo e de espiritual. Eastern Promises e A History of Violence cruzam-se, complementam-se e dão a conhecer um extraordinário actor chamado Viggo Mortensen. Não sei o que será de Viggo Mortensen se chegar a haver uma separação entre Cronenberg e ele. Nunca antes, e podem escrever o que quiserem, Viggo Mortensen chegou tão longe.
Na sequência de luta, em plena sauna colectiva, Cronenberg relembra-nos de que aquilo que deve definir um cineasta é a sua capacidade de comunicar através de imagens. O verdadeiro cineasta não deve fazer uso das palavras para explicar uma cena. Se as deseja utilizar, então que as use como uma forma de iludir o espectador. A imagem, tal como no cinema mudo, deve ser compreendida por si só. E é isso que acontece nesta película. O branco dos azulejos, o sangue pelo chão, o corpo dilacerado. Não há necessidade de haver uma única palavra para que compreendamos o que está ali em jogo.
Estava a ver Eastern Promises e, sabe-se lá porquê, lembrei-me de uma conversa entre Fernando Lopes e Bénard da Costa a que assisti, talvez há dois meses, no Jardim de Inverno do São Luiz. Naquela tarde, discutia-se emocionadamente sobre o facto de a relação entre a câmara e o actor ser um dos maiores mistérios do cinema. Dito por outras palavras, ambos afirmavam que a relação entre um actor e uma câmara pode ser um caso de amor que não é tecnicamente explicável. E, neste caso, a câmara de Cronenberg está de tal forma apaixonada por Viggo Mortensen que nos deixa quase sem ar, irremediavelmente fascinados por aquele rosto e, como é natural, por aquele corpo. E isto porque o corpo de Viggo Mortensen é ainda mais premente do que ele próprio. É um corpo jovem, atlético, ágil mas é também um corpo cansado, corroído e estigmatizado que nos transmite a finitude daquele ser.
Consta que Viggo Mortensen terá partido sozinho para Moscovo, São Petersburgo e para a região da Sibéria nos Montes Urais, tendo passado semanas a percorrer a zona sem tradutor. Também consta que o actor terá estudado os "gangs" da organização Vory v Zakone, lido livros sobre a cultura das prisões russas e aperfeiçoado o sotaque siberiano da personagem. Nada disto já me espanta, a mim que dei o braço a torcer.