29 setembro 2006

Desconcertante

"Não sou um anticomunista primário. Sou um anticomunista universitário. É com esta franqueza, despida das refinadas subtilezas ininteligíveis tão ao gosto da Corte de qualquer época, que Raul Miguel Rosado Fernandes denuncia os que desbaratam inimputavelmente o dinheiro de todos, auxiliados pelo serviço do jornalismo e da justiça, com o seu mercado aberto para as secretarias do poder. Memórias de um rústico erudito é, neste sentido, um retrato realista da alma pouco recomendável da política. Não haja dúvidas de que o seu autor se situa à direita. Mas o retrato que apresenta dificilmente será rejeitado por gente inconformada, descomprometida e séria.

É difícil prender na rigidez duma classificação este conservador liberal que distingue como exemplar o labor de alguns colegas parlamentares comunistas; que se correspondeu com Jorge de Sena ou com José Rodrigues Miguéis; que destrói numa penada essa espécie de claques de futebol que são as Juventudes Partidárias – tudo isto num estilo claro e saboroso, num tom muitas vezes ridente e aqui e ali não limpo de algumas culpas.

A sua não é uma história pessoal de infortúnios, embora tenha descido aos infernos na cilada em que Abril de 74 cedo se tornou; e a eloquência vernacular, admite, foi apurada ali, no curso forte das circunstâncias. Mas não só. Nascido bem, a família garantiu-lhe uma educação invulgar; o seu espírito fez o resto. Apurou a inteligência no estudo dos antigos; Doutor em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa, aí ascendeu a Professor Catedrático ainda com 40 anos de idade (1974) e aí foi Reitor (entre 1979 e 1983). Infatigável na aprendizagem, domina as principais línguas estrangeiras, convive com intelectuais e políticos da mais variada proveniência. Homem de cultura cita com a mesma facilidade Damião de Goes, Henrik Ibsen ou Drummond de Andrade. Tem o instinto da graça, que cultiva sem parcimónia, com a mesma irreverência com que confessa nunca estar imune aos encantos do sexo oposto. Mas nem esses inevitáveis arrebatamentos, nem as suas proverbiais cóleras, parecem falar em seu desabono. Na verdade, só se pronuncia com conhecimento de causa.

E tem-no. Parlamentar na Europa e na Assembleia da República (para a qual se fez eleger, pelo CDS-PP, no distrito de Setúbal, «onde até os gatos são vermelhos»), pode aí comprovar quotidianamente aquilo de que já suspeitava, pois sempre foi homem de acção política. É ao seu reflectido e interveniente desassombro, e ao dos seus companheiros de luta, que se deve em grande parte o que é hoje o associativismo agrícola do país, e bem mais do que isso: a manifestação popular que, em 24 de Novembro de 1975, dividia Portugal ao meio, ostensivamente recusando-se a ser mais uma província soviética. Professor catedrático, Reitor, analisa retrospectivamente o meio universitário, também ele minado por uma competitividade tantas vezes torpe. Gestor agrícola, amante da Natureza, fundador da CAP, conhece os problemas da agricultura portuguesa como poucos, e no campo passa por «engenheiro».

A que se deve a nossa histórica inadaptabilidade às formas superiores de civilização? É uma das perguntas condutoras desta narrativa, que arranca pessoal, com a deliciosa descrição de uma família de grandes senhores da terra alentejanos, espelho de uma parcela pequeníssima do país, e de uma época, o início do século XX.

Aos 72 anos, Raul Miguel Rosado Fernandes diz-se desenganado com o incerto caminho do mundo. Mas o que as suas Memórias também atestam, escritas de cabeça (escritas de cor), é a vontade de não desistir por parte de quem, apesar de tudo, sempre se desdobrou em desvelos para com o país natal. Este testemunho, nítida contenda com o país institucional, é o arremesso do punho (o mesmo punho que inaugurou historicamente o confronto físico no hemiciclo do Parlamento Europeu) que insiste em provar que, na política, nem tudo é glosa do mesmo mote. Que crie, portanto, algum alvoroço."
Livros Cotovia - 28.35 €

26 setembro 2006

What Kind of Blogger Are You?


You Are a Pundit Blogger!



Your blog is smart, insightful, and always a quality read.

Truly appreciated by many, surpassed by only a few

24 setembro 2006

Homenagem à beleza etérea – VI



Há mulheres que não nasceram para ser actrizes, “apenas” belas.
A Inés Sastre é um bom exemplo disto mesmo.

22 setembro 2006

17 setembro 2006

Aviso à tripulação

A partir deste momento, o Mise en Abyme continuará a ser um espaço de tributo ao cinema mas passará a ser também um lugar de divulgação cultural.
Sejam bem-vindos!

03 setembro 2006

Exercício “poético”



Já gastei as palavras pela rua,
Tantos elogios, tantas estupefacções,
E o que ficou é uma torturante admiração pelo teu talento.
Gastei os olhos com o sal das lágrimas,
Gastei-os contigo por seres Charlotte
- I just don’t know what am I supposed to be -
Voltei a gastá-los quando decidiste ser Pursy Will
- But I really don't want to know

Meto as mãos na memória e recordo-me de ti naquela fotografia
A mais perfeita de todas
- Just one moment can change everything

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que as tuas personagens eram só minhas,
Era no tempo em que eu acreditava que as tuas personagens eram só minhas.
Hoje são “apenas” personagens.
Não é pouco, mas é verdade,
Personagens minhas e de todos.

Conheci-te quando eras Rebecca.
Acho que te conheci quando eras Rebecca.
Ou terá sido quando eras Rachael e o piano teimava em não soar bem?
Já não sei. Também já não importa.
O passado é inútil como um trapo.
Aquilo que interessa é que continuas a ser.
És Griet, Meg, Alex, Nola e até mesmo Two Delta.
Pouco me importa. Desde que permaneças.

Até breve.

Fotografia retirada daqui.
Poema original de Eugénio de Andrade.

29 agosto 2006

A um amigo



O Amigo

Era bom encontrar o amigo
No Café, onde estava a olhar
Com um gesto elegante e ambíguo
Para o fumo a sumir-se no ar.

A poesia era o tema dilecto
Da conversa que o tempo engolia.
O real, o preciso, o concreto
Nem sabiam que a gente existia.

Nada era para nós maculado,
Nem um só sentimento era fosco:
Porque havia outra luz, outro lado,
E o mistério morava connosco.

Tudo isto foi antes de Orfeu
Ter levado o encanto consigo.
Esse amigo está vivo – e morreu.
(E de mim, que dirá esse amigo?)

Carlos Queiroz (dedicado a Fernando Pessoa)

17 agosto 2006

Mais achas para a fogueira

Rodrigues da Silva no JL de hoje:
"Sou franco: Miami Vice não me interessa absolutamente nada. Aquele foguetório todo passa-me ao lado, como ao lado me passa mais esta história de polícias & ladrões, no caso em apreço FBI versus traficantes de droga sul-americanos. Já vi. Mesmo se não vi, já vi (é tudo tão previsível, tão cheio de estereótipos, meu deus…) É bem filmado, Miami Vice? É. Pra caraças. Michael Mann sabe da poda: filma discotecas como ninguém, filma lanchas & carros, explosões & tiroteios, mortes & perseguições, tudo com um à-vontade invejável, mostrando-se mesmo impecável numa cena de amor. Mas, que querem?, o seu filme não me diz nada. Dizem que diverte, o azar é que eu gosto de me divertir/divergir (o radical etimológico é o mesmo) de outra maneira. Ou com outro cinema. Que me emocione, me inquiete, me faça pensar. E pensar-me. A culpa não é, pois, do Michael; a culpa é minha."
Tivesse eu escrito sobre Miami Vice e as minhas palavras seriam análogas a estas.

14 agosto 2006

Encontros

Para a Ana, por ter tanta coragem.

Cathy Brenner: [while Melanie is playing the piano] I still don't understand how you knew I wanted lovebirds.

Melanie Daniels: Your brother told me.

Lydia Brenner: Then you knew Mitch in San Francisco. Is that right?

Melanie Daniels: No, not exactly. [grabs a cigarette out of an ashtray]

Há planos assim - VIII



Though nothing can bring back the hour
Of splendor in the grass, of glory in the flower
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind.
William Wordsworth

27 julho 2006

Com os olhos bem abertos

F.W. Murnau vive. Vive nos medos, vive nas sombras, vive nas inquietações mas também vive no amor. Será que viverá para todo o sempre? Pessoalmente, torço para que assim seja. Enquanto houver projecções de Sunrise: A Song of Two Humans, Herr Tartüff e Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, podemos estar descansados quanto à sua sobrevivência.
Ontem à noite, a sala 3 do King estava bastante composta para assistir a Sunrise. Não escondo a minha alegria quando sinto o entusiasmo dos outros pelo cinema. Especialmente quando se trata de um filme mudo. Lá estavam pessoas de todas as idades a vibrarem de forma genuína com as sequências absolutamente geniais de Murnau.
Por momentos, estivemos em 1927 mas houve alturas em que também estive em 1915, ano de The Cheat, filme de uma violência e de uma misoginia perfeitamente actuais. Há algo que aproxima o filme de Murnau e este de Cecil B. DeMille. Talvez seja a ousadia de filmar ímpetos violentos. Em Murnau, o marido, levado por um desejo pecaminoso, resolve assassinar a mulher. Em DeMille, o acto de violência é consumado e punido.
Diz-se que Truffaut terá eleito Sunrise como "o mais belo filme de sempre". É de facto um filme belíssimo na maneira como se dedica ao arrependimento e à redenção mas prefiro nomeá-lo o mais esperançoso de todos os filmes. Ou, se quiserem, o filme em que tudo é perdoável e possível.

E esta, hein?

The Movie Of Your Life Is Erotic Thriller




You've made your own rules in life - and sometimes that catches up with you.

Winding a web of deceit comes naturally, and no one really knows the true you.



Your best movie matches: Swimming Pool, Unfaithful, The Crush

14 julho 2006

Parabéns Ingmar Bergman!

Parabéns ao homem e obrigada ao cineasta.

12 julho 2006

Ela faz cinema

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.
Chico Buarque
(E obrigada pelo convite para participar na tertúlia!)

03 julho 2006

Homenagem à beleza etérea - V

Saffron Burrows
(Poucas mulheres conseguiriam sobressair no meio de tantas ideias visuais como aquelas que vemos em Klimt. Saffron Burrows consegue. E isto não é uma precipitação. É uma certeza.)

01 julho 2006

Inacreditável

Luís Miguel Oliveira deu a pontuação mínima ao filme A Tale of Two Sisters.
Perante isto, repito a minha observação do passado dia 27 de Junho: onde é que estão os críticos capazes de estimar e compreender o terror?

Gostava de ter sido eu a dizê-lo

A arte é uma forma de nos defendermos contra a morte e uma forma de compensação diante do terror que a vida inspira. Como a religião, a arte é uma tentativa para o homem se aproximar da transcendência, criando algo que ficará para além dele próprio.
João Bénard da Costa

27 junho 2006

Dupla vénia


Perante a raridade de pessoas que estimam verdadeiramente o terror e sabem escrever sobre filmes deste género, resta-me fazer uma vénia à seguinte crítica. (E se ainda não o foram ver, não hesitem! Estamos perante um dos melhores filmes do ano.)

26 junho 2006

Bendita última página!

Apetece-me agradecer à Pública por todas as vezes que sorrio / rio / dou gargalhadas a ler esta página. Obrigada!
(Sim, eu sei que não é cinema. Mas também é uma demonstração de inteligência através de imagens e de palavras.)