03 setembro 2006

Exercício “poético”



Já gastei as palavras pela rua,
Tantos elogios, tantas estupefacções,
E o que ficou é uma torturante admiração pelo teu talento.
Gastei os olhos com o sal das lágrimas,
Gastei-os contigo por seres Charlotte
- I just don’t know what am I supposed to be -
Voltei a gastá-los quando decidiste ser Pursy Will
- But I really don't want to know

Meto as mãos na memória e recordo-me de ti naquela fotografia
A mais perfeita de todas
- Just one moment can change everything

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que as tuas personagens eram só minhas,
Era no tempo em que eu acreditava que as tuas personagens eram só minhas.
Hoje são “apenas” personagens.
Não é pouco, mas é verdade,
Personagens minhas e de todos.

Conheci-te quando eras Rebecca.
Acho que te conheci quando eras Rebecca.
Ou terá sido quando eras Rachael e o piano teimava em não soar bem?
Já não sei. Também já não importa.
O passado é inútil como um trapo.
Aquilo que interessa é que continuas a ser.
És Griet, Meg, Alex, Nola e até mesmo Two Delta.
Pouco me importa. Desde que permaneças.

Até breve.

Fotografia retirada daqui.
Poema original de Eugénio de Andrade.

29 agosto 2006

A um amigo



O Amigo

Era bom encontrar o amigo
No Café, onde estava a olhar
Com um gesto elegante e ambíguo
Para o fumo a sumir-se no ar.

A poesia era o tema dilecto
Da conversa que o tempo engolia.
O real, o preciso, o concreto
Nem sabiam que a gente existia.

Nada era para nós maculado,
Nem um só sentimento era fosco:
Porque havia outra luz, outro lado,
E o mistério morava connosco.

Tudo isto foi antes de Orfeu
Ter levado o encanto consigo.
Esse amigo está vivo – e morreu.
(E de mim, que dirá esse amigo?)

Carlos Queiroz (dedicado a Fernando Pessoa)

17 agosto 2006

Mais achas para a fogueira

Rodrigues da Silva no JL de hoje:
"Sou franco: Miami Vice não me interessa absolutamente nada. Aquele foguetório todo passa-me ao lado, como ao lado me passa mais esta história de polícias & ladrões, no caso em apreço FBI versus traficantes de droga sul-americanos. Já vi. Mesmo se não vi, já vi (é tudo tão previsível, tão cheio de estereótipos, meu deus…) É bem filmado, Miami Vice? É. Pra caraças. Michael Mann sabe da poda: filma discotecas como ninguém, filma lanchas & carros, explosões & tiroteios, mortes & perseguições, tudo com um à-vontade invejável, mostrando-se mesmo impecável numa cena de amor. Mas, que querem?, o seu filme não me diz nada. Dizem que diverte, o azar é que eu gosto de me divertir/divergir (o radical etimológico é o mesmo) de outra maneira. Ou com outro cinema. Que me emocione, me inquiete, me faça pensar. E pensar-me. A culpa não é, pois, do Michael; a culpa é minha."
Tivesse eu escrito sobre Miami Vice e as minhas palavras seriam análogas a estas.

14 agosto 2006

Encontros

Para a Ana, por ter tanta coragem.

Cathy Brenner: [while Melanie is playing the piano] I still don't understand how you knew I wanted lovebirds.

Melanie Daniels: Your brother told me.

Lydia Brenner: Then you knew Mitch in San Francisco. Is that right?

Melanie Daniels: No, not exactly. [grabs a cigarette out of an ashtray]

Há planos assim - VIII



Though nothing can bring back the hour
Of splendor in the grass, of glory in the flower
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind.
William Wordsworth

27 julho 2006

Com os olhos bem abertos

F.W. Murnau vive. Vive nos medos, vive nas sombras, vive nas inquietações mas também vive no amor. Será que viverá para todo o sempre? Pessoalmente, torço para que assim seja. Enquanto houver projecções de Sunrise: A Song of Two Humans, Herr Tartüff e Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, podemos estar descansados quanto à sua sobrevivência.
Ontem à noite, a sala 3 do King estava bastante composta para assistir a Sunrise. Não escondo a minha alegria quando sinto o entusiasmo dos outros pelo cinema. Especialmente quando se trata de um filme mudo. Lá estavam pessoas de todas as idades a vibrarem de forma genuína com as sequências absolutamente geniais de Murnau.
Por momentos, estivemos em 1927 mas houve alturas em que também estive em 1915, ano de The Cheat, filme de uma violência e de uma misoginia perfeitamente actuais. Há algo que aproxima o filme de Murnau e este de Cecil B. DeMille. Talvez seja a ousadia de filmar ímpetos violentos. Em Murnau, o marido, levado por um desejo pecaminoso, resolve assassinar a mulher. Em DeMille, o acto de violência é consumado e punido.
Diz-se que Truffaut terá eleito Sunrise como "o mais belo filme de sempre". É de facto um filme belíssimo na maneira como se dedica ao arrependimento e à redenção mas prefiro nomeá-lo o mais esperançoso de todos os filmes. Ou, se quiserem, o filme em que tudo é perdoável e possível.

E esta, hein?

The Movie Of Your Life Is Erotic Thriller




You've made your own rules in life - and sometimes that catches up with you.

Winding a web of deceit comes naturally, and no one really knows the true you.



Your best movie matches: Swimming Pool, Unfaithful, The Crush

14 julho 2006

Parabéns Ingmar Bergman!

Parabéns ao homem e obrigada ao cineasta.

12 julho 2006

Ela faz cinema

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.
Chico Buarque
(E obrigada pelo convite para participar na tertúlia!)

03 julho 2006

Homenagem à beleza etérea - V

Saffron Burrows
(Poucas mulheres conseguiriam sobressair no meio de tantas ideias visuais como aquelas que vemos em Klimt. Saffron Burrows consegue. E isto não é uma precipitação. É uma certeza.)

01 julho 2006

Inacreditável

Luís Miguel Oliveira deu a pontuação mínima ao filme A Tale of Two Sisters.
Perante isto, repito a minha observação do passado dia 27 de Junho: onde é que estão os críticos capazes de estimar e compreender o terror?

Gostava de ter sido eu a dizê-lo

A arte é uma forma de nos defendermos contra a morte e uma forma de compensação diante do terror que a vida inspira. Como a religião, a arte é uma tentativa para o homem se aproximar da transcendência, criando algo que ficará para além dele próprio.
João Bénard da Costa

27 junho 2006

Dupla vénia


Perante a raridade de pessoas que estimam verdadeiramente o terror e sabem escrever sobre filmes deste género, resta-me fazer uma vénia à seguinte crítica. (E se ainda não o foram ver, não hesitem! Estamos perante um dos melhores filmes do ano.)

26 junho 2006

Bendita última página!

Apetece-me agradecer à Pública por todas as vezes que sorrio / rio / dou gargalhadas a ler esta página. Obrigada!
(Sim, eu sei que não é cinema. Mas também é uma demonstração de inteligência através de imagens e de palavras.)

18 junho 2006

Hey You

Verdades inabaláveis
Noah Baumbach
É bom que decoremos este nome rapidamente. Já o devíamos saber de cor desde que assistimos a The Life Aquatic with Steve Zissou mas ainda vamos a tempo de nunca mais o esquecer.
Jeff Daniels
Insubstituível desde The Purple Rose of Cairo.
Laura Linney
Sempre gostei de a ver como mulher de homens rijos.

Primeiras considerações
Não é habitual vermos um filme em que todas as personagens são de tal forma complexas e humanas que poderíamos assistir a esse mesmo filme a partir do ponto de vista de qualquer uma delas. Ontem, na sala do Monumental, escolhi ser Walt Berkman, o filho mais velho de The Squid and the Whale. Da próxima vez, talvez escolha ser Bernard Berkman, o intelectual avarento e fracassado.
Decidi tomar o partido de Walt desde o momento em que constatei que esta personagem incorpora algo a que sempre chamei o fenómeno “até o meu pai diz”. O que quero dizer com isto? É simples. Quando um filho ainda não atingiu um certo distanciamento em relação ao pai e não consegue formular opiniões por si só, baseia-se sempre naquilo que ouve da boca do pai e repete-o incessantemente em frente aos amigos. (Por vezes, acontece mesmo que o adolescente sente necessidade de sublinhar as suas palavras e então profere um sentido “até o meu pai diz” no princípio de cada frase.)
Ora, não só Walt Berkman usa e abusa deste fenómeno para impressionar a namorada, como tudo na vida dele parece girar em torno do pai. Parece mas talvez não gire e talvez não tenha mesmo de girar. Na verdade, é a enfrentar a recordação materna que Noah Baumbach dá por concluído o seu filme. E que filme! The Squid and the Whale surge então como um abalar de consciências, propício a ser visto por espectadores de todas as idades. Haverá sempre um de nós que se identificará com alguma das personagens. No meu caso particular, quero ser como Walt Berkman e enfrentar todas as construções, reais ou irreais, que vou conservando na minha memória desde criança. Enfrentá-las, desconstruí-las e, se for necessário, fugir delas até me sentir preparada para as receber de vez.

17 junho 2006

Comentário a um amigo

Para ler antes do meu comentário.
a) Eu também fazia parte do grupo de pessoas que foi ver este filme. Quando saímos da sala, não concordei com aqueles que tinham gostado muito mas também não estive de acordo com o Francisco.

b) Tecnicamente, o filme até pode lembrar um videoclip (e o facto de isto ser um ponto negativo é discutível) mas tem uma qualidade evidente: um bom trabalho de mise-en-scène a fazer lembrar o recente Red Eye do grande Wes Craven.

c) Concordo com uma frase da Visão Online: a pedofilia é um assunto delicado. Indo mais longe, nunca aceitei que se etiquetassem todos os pedófilos como criminosos macabros. Daí que a ideia de conceber uma justiceira de crianças abusadas não me convença. (Será que há uma real proximidade entre o caso de Roman Polanski, mencionado no filme, e a história do homem que violava a sobrinha de oito anos?)

d) Ellen Page vicia e faz com que todas as atenções recaiam sobre ela. A primeira sequência, em que a vemos a conversar com o fotógrafo num café, fez-me ter a certeza de que estávamos na presença de uma actriz. A sua capacidade de nos fazer confundir ingenuidade com perversidade pareceu-me bem mais relevante do que todas as outras habilidades que executa ao longo do filme.

e) O mistério que envolve esta capuchinho vermelho vingativa reúne mais perversidade do que todas as cenas supostamente perversas. Quem é esta adolescente? De onde vem? O que a move? Nunca saberemos e ainda bem. Gosto de filmes que não apresentam soluções.

15 junho 2006

Suposição matinal

Se eu resolvesse fazer um inquérito de rua e perguntasse a rapazes portugueses, nascidos entre 1978 e 1988, qual o filme preferido, tenho quase a certeza de que a resposta seria uma de duas: Braveheart (para os menos "cinéfilos") ou The Big Lebowski (para os mais "cinéfilos").
(Para todos aqueles que não se incluem nesta suposição, o meu mais sincero cumprimento cinéfilo.)

04 junho 2006

Um murro no estômago



Sobre o seu filme, Miguel Clara Vasconcelos terá dito que não queria comparações com Belarmino de Fernando Lopes. A pergunta que se coloca é o porquê desta renúncia a um sóbrio antepassado comprovativo de que os cineastas têm filmado o boxe como quem observa um espectáculo inquietante. Senão, recordemos por breves instantes Jake La Motta de Raging Bull e a forma como Martin Scorsese transformou a violência no meio de expressão do seu protagonista. Escusamos até de viajar tantos anos na história do cinema quando podemos simplesmente recordar o último de Clint Eastwood, Million Dollar Baby, ainda aqui tão perto.
Mas regressemos a Documento Boxe, motivo pelo qual iniciámos este texto. Nascido em Lisboa em 1971, ano do célebre combate de boxe Frazier vs. Ali, Miguel Clara Vasconcelos foi vencedor do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde. À partida, parece-nos que este documentário é mais um filme a transmitir esse fascínio pelo boxe que tem marcado a sétima arte. Porém, mais do que isso, Documento Boxe insere-se numa cultura documental portuguesa que tem dado a conhecer um Portugal quase ignorado.
Compreender Documento Boxe implica que o relacionemos com documentários como À Flor da Pele, realizado por Catarina Mourão, e Gosto de Ti Como És, assinado por Sílvia Firmino. Em conjunto, estes filmes são representativos da vontade de mostrar um Portugal menos evidente aos espectadores e de o desmistificar, apontando o real sem artifícios. Neste gesto de filmar um país simultaneamente genuíno e castiço, a lembrar desejos neo-realistas de outros tempos, reside o problema de os espectadores não estarem preparados para o aceitar.
E assim, caminhando fugazmente por momentos cinematográficos, regressamos a Documento Boxe. No momento em que conhecemos Jorge Pina, protagonista deste documentário, já estamos familiarizados com o mundo do boxe português. A câmara do realizador proporcionou-nos que fossemos testemunhas ocultas das pesagens dos atletas e do convívio entre treinadores e pugilistas. Ao contrário de Scorsese, Miguel Clara Vasconcelos apresenta-nos um protagonista que se exprime através de palavras e que nos conta várias histórias.
Preparemo-nos pois para o receber de braços abertos, dispostos a inesperados murros no estômago. “Vais ler e vais gostar da história”, diz-nos o pugilista. “Vão ver e vão gostar da história”, digo-vos eu. Todas estas breves referências apoiam a conclusão de que esta história de Jorge Pina deve ser entendida como parte integrante de um novo cinema português que precisa de espaço e de espectadores para se poder definir e desenvolver. Desbravando caminhos, experimentando diferentes estéticas que nem sempre recebem elogios, a fotografia de Sérgio Brás d’ Almeida neste documentário é exemplificativa disto mesmo, assim cresce o nosso cinema.

20 maio 2006

The Aristocrats



Para quem não tem medo de rir.
Para quem não tem medo do cinema.
No fundo, para quem não tem medo de si mesmo.

07 maio 2006

Proposta editorial

"O Cine Guia® 2007, dedicado aos filmes disponíveis no mercado português no formato de DVD, vai estar nas livrarias e em diversos outros pontos de venda a partir de Outubro de 2006, representando um poderoso estímulo para a compra e o aluguer de DVDs.

O Cine Guia® 2007 é da autoria do crítico de cinema e jornalista Miguel Lourenço Pereira, criador do blog Hollywood, tendo prefácio de Mário Dorminsky, fundador e director do Festival Internacional de Cinema do Porto/Fantasporto.

O Cine Guia® 2007, que terá o formato de um estojo de DVD, para facilitar a arrumação em casa junto dos DVDs como livro de consulta, terá distribuição nacional em livrarias e outros pontos de venda de revistas e de jornais, em hipermercados e áreas de serviço.

Esta iniciativa editorial – que terá continuação nos anos seguintes – é um projecto profissional que descende directamente do anuário Video 89, Video 90, Video 91, Video 92 e Video 93, em que colaboraram especialistas portugueses (jornalistas e críticos de cinema), e insere-se na tradição dos «movie guides» que proliferaram nos EUA e que tanto êxito obtiveram nos países de língua inglesa, fornecendo ao público uma informação eficaz sobre o que existe no cinema, em sala e em casa («home cinema» e TV)."