27 setembro 2005

Estreia aguardada


" Passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário, o seu pai, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu. A obsessão de a encontrar leva-o a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal... A dor brutal causada pela ausência de Alice transformou Mário numa pessoa diferente mas essa procura obstinada e trágica é talvez a única forma que ele tem para continuar a acreditar que um dia Alice vai aparecer. "
Premiada em Cannes, Alice, primeira longa-metragem de Marco Martins, estreia nas nossas salas no dia 6 de Outubro. Deixo-vos com a sinopse do argumento e com o convite para visitarem o site. Lembrem-se de que o elenco possui nomes como o de Beatriz Batarda e de que a música pertence a Bernardo Sassetti.
Vão ver e encontramo-nos por cá!

26 setembro 2005

Homenagem à beleza etérea - III



Jacqueline Bisset em La nuit américaine de François Truffaut

23 setembro 2005

Ciclo Jacques Tourneur



Auditório da Biblioteca Museu República e Resistência
Sessões gratuitas

28 de Setembro / 18h30m - Days of Glory

06 de Outubro / 18h30m - Out of the Past

12 de Outubro / 18h30m - Easy Living

19 de Outubro / 18h30m - Experiment Perilous

26 de Outubro / 18h30m - Berlin Express

O Auditório da Biblioteca Museu República e Resistência situa-se na Rua Alberto de Sousa, relativamente perto da estação de Metro Entrecampos. Este espaço cultural possui uma biblioteca repleta de bibliografia sobre a Primeira República, o Estado Novo, a oposição ao Regime, o 25 de Abril, a Guerra Colonial e a Descolonização Portuguesa. A par disto, o Auditório da Biblioteca Museu República e Resistência oferece ainda a oportunidade de usufruir de um Cine Clube cuja sala apresenta condições superiores a muitas outras que organizam ciclos de cinema.
Nos próximos dias, deliciem-se com o festim cinéfilo composto por películas de Jacques Tourneur. (Se me permitem o conselho, não percam Out of the Past, com Robert Mitchum e Kirk Douglas nos meandros do film noir... Inesquecível!)

12 setembro 2005

Resposta a Luís Miguel Oliveira

Luís Miguel Oliveira, crítico habitual do suplemento Y, escreveu a seguinte afirmação sobre o filme Os Psico-Detectives: O argumento não saiu das mãos de Charlie Kaufman mas podia muito bem ter saído.
Permita-me que lhe responda: não, nunca poderia ter saído das mãos de Charlie Kaufman. E porquê? Em primeiro lugar, convém que não caiamos no erro de confundir um disparate pegado (como a suposta comédia existencial Os Psico-Detectives) com uma obra séria que consegue manipular o absurdo ao ponto de o tornar convincente (e aqui, estou a referir-me aos argumentos escritos por Charlie Kaufman que tornaram possível a existência de grandes filmes como Being John Malkovich, Human Nature, Adaptation e Eternal Sunshine of the Spotless Mind).
Em segundo lugar, as histórias de Charlie Kaufman são objectos únicos no cinema. Se alguém conhecer algum argumentista que tenha arrojado tanto no que toca à concepção cénica e à organização temporal, avise-me por favor. Já Os Psico-Detectives, tradução lamentável de I Heart Huckabees, assemelha-se a muitas coisas mas nunca consegue ser nada. Assim que conhecemos a personagem principal, Albert Markovski, passa-nos pela ideia que poderíamos estar a ver uma película de Woody Allen. Momentos depois, quando observamos o par de detectives existencialistas e todas as suas técnicas bizarras, temos reminiscências do universo de Kaufman. Em ambos os casos, demoramos pouco tempo a esquecer tais sensações. Woody Allen e Charlie Kaufman nunca perderiam o controlo de uma história, tal como o Craig Schwartz de Being John Malkovich nunca perdia o controlo das suas marionetas.
Em Os Psico-Detectives, o realizador e argumentista David O. Russell vai acumulando informação e quando não sabe o que fazer com ela, impele as personagens a explodirem em ataques de histeria: Jude Law a chorar baba e ranho, Naomi Watts a ter atitudes de adolescente e Mark Wahlberg transformado num bombeiro com comportamentos próprios de um autista. Nada se resolve, nada se completa. A desculpa de se fazer um filme sobre coincidências não pode justificar tudo. Mais do que isso, nunca poderá chegar para confundir Os Psico-Detectives com um argumento de Charlie Kaufman. Depois de o filme acabar, só resta a memória de ter visto Isabelle Huppert e Dustin Hoffman, cujas enormes capacidades não são propriamente uma novidade.

08 setembro 2005

Cinema cantado

De uma relação íntima entre a música, o cinema e a poesia, nasceu o projecto Noiserv encabeçado por David Santos, 23 anos. Canções escritas por um eu sonhador que não abdica das suas vivências e dos seus objectivos profissionais.
" Nas alturas em que ensaio ou escrevo letras, apercebo-me de que a banda sonora exerce um papel fundamental nos filmes. Por vezes, uma música tem mais impacto do que um diálogo. Quando penso nisto, lembro-me de que um filme como Lost in Translation ganha uma simbologia única na medida em que tem uma banda sonora perfeita. Para dar outro exemplo, posso referir o recente Os Edukadores, em que a cena mais marcante é aquela em que ouvimos unicamente Jeff Buckley. Quando toco, tento transmitir o "meu cinema" às pessoas que me ouvem. "
Excerto de uma conversa com David Santos

06 setembro 2005

Homenagem à beleza etérea - II



Claudia Cardinale em de Federico Fellini

02 setembro 2005

Proposta de discussão - VIII


Gena Rowlands


Kim Novak


Liv Ullmann

Caros visitantes,

Não resisti à proposta de conversarmos sobre as melhores actrizes de sempre. No que diz respeito à actualidade, já conhecem as minhas escolhas desde a altura em que discutimos sobre louras e morenas.

Quanto ao novo tema, talvez estranhem o número escasso das minhas eleitas. De cada vez que penso no assunto proposto, mais me apercebo de como estas mulheres possuem momentos superiores a tantas carreiras de outras actrizes conceituadas.

Será que concordam?

29 agosto 2005

Cinemateca surpreende

Atenção amantes do cinema de terror!
Durante o mês de Setembro, a Cinemateca abre as portas da esplanada a todos aqueles que estiverem interessados em assistir a filmes de zombies. Obras de George Romero, Sam Raimi, Peter Jackson e John Carpenter estarão à vossa espera.
Encontramo-nos por lá!

22 agosto 2005

Proposta de discussão - VII


Al Pacino


Anthony Hopkins


Bill Murray


Cary Grant


Edward Norton


Jack Nicholson


James Dean


James Stewart


John Cassavetes


Paul Newman




Robert De Niro


Rowan Atkinson

Aqui fica a minha resposta à sugestão de discutirmos sobre grandes actores. Em vez de elaborar uma lista exaustiva, preferi referir os primeiros nomes que me vieram à cabeça. Aguardo acrescentos e / ou discordâncias.

06 agosto 2005

Há planos assim - III



Por entre sorrisos, silêncios e saudades, Cinema Paraíso irrompe como uma demonstração de bom cinema, de humanidade, de cumplicidade e de compreensão. Aqui, mais do que nunca, apercebemo-nos de que cinema é sinónimo de vida.
Cinema Paraíso surge então como um espelho de nós mesmos, enquanto seres dedicados ao amor e capazes de devorar cinema. Em nenhum outro filme pudemos assistir a uma demonstração tão genuína do que é o amor pela sétima arte. Um amor que nasce na infância e que acompanhará o protagonista. Vemo-lo tal e qual como no plano escolhido mas comovemo-nos com aquilo que não vemos: um Salvatore de meia-idade que se encontra em Roma a recordar a altura em que conheceu o amor. Mais uma vez o amor. Digamo-lo sem qualquer tipo de reservas: Cinema Paraíso é uma homenagem ao amor nas suas formas mais puras – a amizade ao inseparável Alfredo, a dedicação à arte e a devoção ao amor da sua vida. Por silêncios, por aquilo que não se diz mas que se compreende, assim segue Cinema Paraíso.
Sujeito a variadíssimos níveis de interpretação, esta obra-prima do actual cinema italiano* relembra-nos a enorme pobreza trazida pela guerra. Para fugir a ela, nem que fosse por algumas horas, os habitantes da vila escolheram acreditar no cinema e vivê-lo intensamente. E porquê? Porque o cinema concede a oportunidade de vivermos a nossa vida ou outra qualquer.
* Só comparável a O Carteiro de Pablo Neruda, obra-prima italiana, que conta igualmente com a prestação desse actor inesquecível chamado Philippe Noiret.

03 agosto 2005

Closer



The Blower's Daughter
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
(...)
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
Damien Rice

29 julho 2005

Homenagem à beleza etérea



Liv Johanne Ullmann notabilizou-se em películas realizadas por Ingmar Bergman. A sua primeira prestação foi no filme Persona, depois do qual se seguiram muitos outros como, a título de exemplo, Lágrimas e Suspiros. Liv Ullmann foi, durante muito tempo, uma espécie de musa para o realizador.

28 julho 2005

Proposta de discussão - VI





É reconhecido por todos que a literatura e o cinema são formas de arte independentes mas é igualmente reconhecido que podemos estabelecer uma ponte entre ambas. Assim, proponho que reflictamos sobre as inúmeras adaptações cinematográficas que se têm feito com base em livros mediáticos.
Excluindo o facto de os livros serem, na esmagadora maioria das vezes, superiores ao resultado cinematográfico, proponho que recordemos a película O Nome da Rosa de Jean-Jacques Annaud. Neste caso, aconteceu-me ler o romance depois de ter visto o filme e isso teve como consequência visualizar a imagem de Sean Connery de cada vez que o escritor Umberto Eco dava vida ao monge franciscano Guilherme de Baskerville.
Por outro lado, pude ler as aventuras de Harry Potter antes da saga passar ao grande ecrã e isso proporcionou-me a oportunidade de imaginar livremente o aspecto físico das personagens. Se, pelo contrário, tivesse lido os livros depois de ver os filmes, passaria pelo desespero de não conseguir afastar a imagem de Daniel Radcliffe das páginas de J. K. Rowling.
A partir destes exemplos, lembrei-me de que poderíamos discutir sobre a capacidade inerente às adaptações cinematográficas de sufocarem a nossa imaginação e de nos privarem daquilo que a literatura pode oferecer.
Fico à espera das vossas opiniões!

15 julho 2005

Obrigada Cinemateca



Há poucos momentos assim na vida de um português. Entrar numa sala de cinema, esperar pelo apagar das luzes e, de repente, aceder a um universo simultaneamente subversivo e machista de uma Lisboa suja no final da década de 70. Kilas, o mau da fita, filme projectado ontem pela Cinemateca Portuguesa, garantiu este momento e ofereceu gargalhadas genuínas a um público que se identificou com ambientes e linguagens aparentemente extintos.
Em tom de comédia mas muitas vezes em tom verdadeiramente constrangedor, Kilas, o mau da fita vai fazendo com que esbocemos um sorriso de cada vez que um actor entra em cena. Em apenas 120 minutos, revimos Lia Gama como uma prostituta robusta e admiradora de Rita Hayworth, Mário Viegas num desempenho que reafirmou o seu enorme talento, Ana Bola ainda a tactear o terreno da interpretação e Adelaide Ferreira anos antes do seu sucesso musical Baby Suicida.
Numa Lisboa de miradouros, tascas castiças, galhardetes do Benfica, carcaças com manteiga, táxis pretos e verdes, músicas do Sérgio Godinho e recordações cinéfilas, José Fonseca e Costa consegue aquilo que muitos afirmam não existir no cinema português: uma película semelhante a um filme de gangsters com sangue, aventura e sexo. Relembremos a sequência em que Ana (desempenho memorável de Paula Guedes) é violada por um grupo de marginais. Vê-la deitada, coberta apenas por um lençol, apontamento que nos recorda Cristo abandonado na cruz, aproxima-nos de uma quase religiosidade blasfema em que também Kilas “lava as mãos” e entrega a mulher à sofreguidão masculina.
Por tudo isto, apetece-nos reafirmar que sessões como esta, infelizmente só possíveis na Cinemateca, deveriam ser habituais noutras salas comerciais e mesmo nos canais de televisão. É urgente recordar os verdadeiros clássicos do nosso cinema.

(Fica apenas uma dúvida. Porquê dobrar a voz do actor brasileiro Lima Duarte? Terá sido pelas mesmas razões que levaram o realizador Jorge Silva Melo a dobrar a voz de Ángela Molina no filme Coitado do Jorge?)

14 julho 2005

Parabéns!

Ingmar Bergman nasceu na Suécia, no dia 14 de Julho de 1918.
Parabéns ao maior génio que o cinema conheceu!




To make films is for me a natural necessity, a need similar to hunger and thirst.

26 junho 2005

Um aparte


“The first Humphrey Bogart movie I saw was The Maltese Falcon. I was 10 years old and I identified immediately with Peter Lorre. The impulse to be a sniveling, effeminate, greasy little weasel appealed to me enormously and, setting my sights on a life of mealymouthed degradation and crime, I rapidly achieved a reputation that caused neighboring parents to appear at my doorstep carrying torches, a large rope and bags of quicklime… I wrote Play it again, Sam to honor Bogart for at least giving me a few months of smooth sailing, and also to get even with a certain girl (or a particular sex that gives me trouble, to tell the truth).“

Woody Allen, “How Bogart Made Me the Superb Lover I Am Today”
Março de 1969

25 junho 2005

I waited my whole life to say it


Em 1942, Michael Curtiz tinha acabado de realizar a história de um triângulo amoroso, constituído por Victor Laszlo, Ilsa Lund Laszlo e Rick Blaine. Estávamos na presença de Casablanca, cuja acção se desenrolava em Dezembro de 1941 e cujo propósito era também o de focar a questão dos refugiados na Segunda Guerra Mundial. Num ambiente de espera desesperante, estes homens e mulheres aguardavam a sua vez de poderem partir para a América (“Waiting, waiting, waiting, I´ll never get out of here. I´ll die in Casablanca.”)
Volvidos 30 anos, o realizador americano Herbert Ross executa Play it again, Sam, tendo por base uma peça de teatro de 1969, escrita por Woody Allen. Nesta película, confrontávamo-nos igualmente com um complicado triângulo amoroso, composto por Dick Christie, Linda Christie e Allan Felix. Observando o título da obra fílmica de 1972, reconhecemos uma das frases mais célebres da história do cinema, frequentemente relacionada com Casablanca, embora nunca seja proferida ao longo deste filme. Os nossos ouvidos apenas captam pedidos como “Play it once, Sam”, “Play it, Sam” e “Sing it, Sam”.
Play it again, Sam conta-nos a história de um homem de 29 anos, chamado Allan Felix, que trabalha como crítico de cinema e vive numa casa atulhada de cartazes, revistas e fotografias de Humphrey Bogart. A par disto, Allan recebe visitas frequentes de Bogart vestido com a indumentária de Rick Blaine, herói romântico de Casablanca.
Os minutos iniciais de Play it again, Sam decorrem no interior de uma sala de cinema, onde encontramos Allan Felix a rever a cena final de Casablanca. Momentos depois, vemo-lo a desfrutar da companhia do seu actor preferido. Humphrey Bogart parece ter acabado de sair da última sequência do clássico de 1942: veste as mesmas roupas e traz o revólver usado no assassinato do alemão. Assim que o ouvimos falar, reconhecemos a sua voz e notamos que se dirige a Allan através da expressão “Kid”, que usava para alcunhar a personagem de Ingrid Bergman. No entanto, este Bogart comporta-se como uma espécie de caricatura de Rick Blaine.
A presença de Humphrey Bogart em Play it again, Sam é um dos aspectos que constituem o processo de reflexividade criado por Woody Allen. Este modo de reflexividade está relacionado com o procedimento fílmico que permite a existência de um objecto encaixado, dentro de uma obra maior, que reproduza detalhes ou acontecimentos desta. De uma forma mais simples, podemos referirmo-nos à temática do cinema dentro do cinema ou, se quisermos, ao processo de mise en abyme. No que diz respeito aos exemplos escolhidos, somos surpreendidos com o facto de ser a obra maior (Play it again, Sam) a reproduzir particularidades de um intertexto preexistente e bastante conhecido (Casablanca). Quer isto dizer que, na maioria dos casos, temos um filme menor, dentro de um filme maior, cuja função é a de reflectir pormenores ou situações da obra maior. No nosso caso, temos o objecto encaixado a ser responsável pela existência do filme em si.
Casablanca, que tem vindo a servir de inspiração a tantos outros filmes como, por exemplo, Gato Preto, Gato Branco de Emir Kusturica e Something's Gotta Give de Nancy Meyers, recebe o seu maior tributo nesta fita de Herbert Ross. Há uma clara intenção de conceber um objecto que sirva de espelho ao grande clássico. Todavia, não se pretende que este “espelho” reproduza um verdadeiro reflexo. O que se ambiciona é oferecer aos espectadores a oportunidade de assistir a uma perspectiva actual, marcada pela década de 70, do grande clássico. Aliás, é o próprio Bogart quem, ao som de “As Time Goes By”, refere “That was great! You really developed yourself a little style.”
Há, por parte de Woody Allen, o desejo de utilizar o seu argumento como forma de reacender e preservar a memória de Casablanca. Para alcançar este objectivo, mune-se de objectos cénicos, de uma personagem-fetiche e do seu conhecimento profundo sobre o filme de 1942. O resultado é evidente: Woody Allen conseguiu glorificar e imortalizar, numa primeira instância, o filme de Michael Curtiz e, numa última instância, a arte cinematográfica.

22 junho 2005

Problemas conjugais no cinema





Estávamos em 1941. Alfred Hitchcock reunia Carole Lombard e Robert Montgomery num filme intitulado Mr. & Mrs. Smith. Passam 64 anos. Doug Liman convida Angelina Jolie e Brad Pitt para interpretarem Mrs. Smith e Mr. Smith. No primeiro, conhecemos um casal envolvido num problema legal que invalida o seu casamento. No segundo, somos apresentados a um par de assassinos que ambiciona matar-se mutuamente.
O original Mr. & Mrs. Smith aposta nas peripécias típicas da screwball comedy, enquanto que o novo ostenta demasiadas sequências de acção que denotam incapacidade técnica. Além disso, é impossível fugir a duas verdades inabaláveis: Doug Liman está a léguas de Hitchcock e a carreira de Brad Pitt encontra-se encalhada numa total falta de versatilidade. Já cansa vê-lo a sorrir e a petiscar em quase todas as cenas de Mr. & Mrs. Smith, Ocean's Eleven, Spy Game ou mesmo Snatch.
À partida, parece que as semelhanças entre estas películas se cingem ao título homónimo e ao facto de serem comédias. No entanto, numa análise atenta, apercebemo-nos de que há mais semelhanças entre elas do que poderíamos supor. Tanto na obra da década de 40 como na recente, subsiste uma crise matrimonial provocada por impaciências constantes. A antiga atracção (recordemos o plano das pernas de Hitchcock e a dança de Doug Liman) deu lugar à monotonia diária. Até que, quando menos se espera, os dois casais são surpreendidos por notícias estrondosas. Em 1941, constata-se que a certidão de casamento não é legal. Na segunda fita, marido e mulher descobrem a verdadeira identidade um do outro.
Depois de tais revelações, segue-se a vontade de reconstruir o casamento. Na película a preto e branco, exibiu-se um marido que não desiste de reconquistar a mulher. Em 2005, opta-se por cenas humorísticas a alternarem com sequências de tensão física entre duas das estrelas mais mediáticas de Hollywood. Ainda que o resultado seja o mesmo em ambas as películas, um tranquilizador final feliz, importa denotar alguns aspectos. Não há grandes arrojos na obra de Doug Liman no sentido em que ver Angelina Jolie aos tiros e aos pontapés não surpreende ninguém. Em contrapartida, no filme de Hitchcock, há um notório ataque ao convencionalismo quando se elege uma senhora como Carole Lombard para bater no marido e evidenciar inúmeras cumplicidades sexuais.
Assim, mais uma vez, temos uma película de Hitchcock a merecer a nossa homenagem. Mr. & Mrs. Smith abdica do suspense, do jogo misterioso com o espectador, e apresenta uma screwball comedy a superar clássicos desse mesmo género, por vezes cansativos e repetitivos, como Bringing Up Baby de Howard Hawks.

20 junho 2005

Bergman e todos nós


Para aqueles que só descobriram Ingmar Bergman depois da estreia comercial de Fanny e Alexandre, a chegada de Saraband representou um acontecimento único e inesquecível. Após tantas idas à Cinemateca para assistir às películas do mestre sueco, eis a recompensa trazida pelo dia 13 de Janeiro deste ano: a possibilidade de fazer parte da atmosfera de ânsia e expectativa que envolve a estreia de um filme de Bergman.
Saídos da sala de cinema, depois de termos testemunhado o reaparecimento de Liv Ullmann e Erland Josephson, somos invadidos por inúmeras recordações. A música ainda se ouve e transporta-nos para a dimensão claustrofóbica de Lágrimas e Suspiros, as rugas parecem ter sido filmadas para nos conduzirem até Morangos Silvestres, a língua sueca remete-nos para todo o imaginário obsessivo de O Silêncio e os olhos de Liv Ulmann levam-nos ao sonho vão da existência de Persona. Mas será que Saraband se limita a estimular as nossas memórias cinematográficas? Certamente que não.
O último filme de Bergman, suposta despedida do mundo do cinema, desenvolve-se em torno da reaproximação de Marianne e Johan. Duas pessoas, marcadas por um mesmo passado, reencontram-se numa casa de campo, cercada por paisagens de inenarrável beleza. Se pensavam que Bergman já nos tinha dito tudo o que havia para dizer, desenganem-se. Assistir a Saraband é entrar num processo de identificação e de diálogo catártico em que o requisito imprescindível é a coragem para encarar a complexidade do ser humano, sem disfarces e sem ingenuidades.
Fixemo-nos na cena em que Johan se encontra no corredor. Quem é este Johan? Poderemos reduzi-lo à etiqueta de mau marido e de pai incompetente? Poderemos descreve-lo unicamente como um homem deslumbrado pela falecida nora e obcecado pela neta? Julgo que ao fazê-lo, cairíamos num lamentável erro. Johan é mais uma daquelas personagens, criadas por Bergman, que demonstra a excepcionalidade do ser humano. Faço minhas as palavras publicadas no suplemento Y, de 14 de Janeiro: Para perceber o Bergman é só preciso já ter sentido uma emoção, já ter amado alguém ou alguma coisa. E ter pensado um pouco sobre isso. (…) O que é espantoso no Bergman, e actualíssimo, é a recusa desse efeito de normalização: cada ser humano é sempre um ser excepcional. E é sempre um ser de desejo.
Cientes de tudo isto, devemos olhar para Saraband como se olha para uma obra-prima. Talvez a habilidade magistral de Ingmar Bergman seja a capacidade de nos envolver nos grandes planos, nos diálogos desconcertantes e no nosso próprio reflexo. Olhando para o ecrã, reconhecemos os nossos defeitos, as nossas fraquezas, os nossos desejos e os nossos ímpetos. Por esse impacto único, devemos agradecer a Ingmar Bergman. Mais do que isso, devemos acreditar que esta ainda não foi a sua última estreia em circuito comercial. Parece-vos impossível que um homem de 86 anos volte a pegar numa câmara? Como diz João Bénard da Costa, Impossível? Não para esse génio de todos os possíveis, chamado Ingmar Bergman.
Na compra do Público de hoje, o jornal dá a oportunidade de adquirir o filme Saraband por menos de 10 euros!

17 junho 2005

Proposta de discussão - V


Amanda Peet


Angelina Jolie


Carole Bouquet


Carrie-Anne Moss


Juliette Binoche


Natalie Portman

Depois de vários pedidos a exigirem uma discussão sobre morenas actuais, aqui estão as "minhas" preferidas. Confesso que algumas não são propriamente actuais mas senti necessidade de as incluir. Ficarei à espera dos vossos comentários!